Menu

E-mail


<

 

 

  • A primeira semana

    Milton Temer

    Do erudito e sofisticado Príncipe, de Machiavel, ao pragmático e minimalista Breviário dos Políticos, do cardeal Mazarino, o sem-diploma Luiz Inácio Lula da Silva parece ter lido muito, se consideradas suas decisões iniciais na Presidência da República.

    A partir do surpreendente relatório da equipe de transição, apresentado por Antonio Palocci, quebrando o que parecia uma estranha rendição ao período FHC, aos simbolismos e compromissos gerados pela complementação final da equipe de governo, muita mudança aconteceu em pouco tempo. E vou tentar comprovar.

    Se o mal tinha que ser feito de pronto, e numa só vez, como preconiza o receituário do Príncipe, as indicações de Henrique Meirelles, para o Banco Central, e de alguns nomes da equipe da Fazenda funcionaram exatamente nesse sentido.

    Um inegável clima de ceticismo se instalou em vários analistas esperançosos dos novos tempos de mudança. Para a maioria deles, Lula já imprimia a ''continuidade sem continuísmo''. ''Mais, do mesmo'', afirmava um. ''Plus ça change, plus c'est la même chose'', relembrava outro mais erudito. As cortinas se reabriam para o retorno em glória do Il Gattopardo, de Lampedusa -- nascia a suspeita de aplicação do ''é preciso que mudemos tudo para que tudo se mantenha como está''. Enfim, e com todas as razões, um festival de frustração inicial.

    Eu mesmo já me preocupava com a série de artigos que vinha publicando aqui no JB. Não estaria forçando a barra com a proposta de mobilizar paciência e solidariedade até pelo menos que o primeiro projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias chegasse ao Congresso? Tomando desejo por realidade?

    Felizmente, veio a primeira semana, com sua seqüência de sinais. E não foi pouca coisa. Não só pelas excelentes surpresas com os novos nomes - que tal a indicação de Samuel Pinheiro Guimarães para a secretaria-geral do Itamaraty, depois de afastado pelo governo FHC por ter se manifestado, no embate de idéias, contra a Alca? - mas principalmente pelo que foi enunciado em diversas cerimônias de posse. O que disseram Dirceu e Dulci em pleno Palácio do Planalto, um na seguida do outro, seria inimaginável acreditar possível para os de minha geração. O sentido de mão dupla do conceito de aliança com o capital produtivo, de Dirceu, é um achado - incentivos, sim, para o mais rápido desenvolvimento desse segmento, mas com a correspondente distribuição de renda, por justos salários na criação de novos postos de trabalho, na outra ponta. Foi a retomada da ''aliança com a burguesia nacional'' em termos totalmente distintos do puro desenvolvimentismo que o velho Partidão prescrevia nos anos 50.

    Isto, somado à formulação posterior de Dulci, com o apelo para que Genoino, na presidência do partido, se obrigue a manter o PT no campo da esquerda socialista, consolida sintomas de um governo realmente democrático; muito mais expressivos do que se imaginava crível para estes primeiros dias. Principalmente quando ouvimos Rosseto declarar, em tom antes nunca ouvido em ambientes ministeriais, que ''reforma agrária não é problema. É solução''. E melhor, ressuscitando protestos da reacionária UDR, prova maior da correção da assertiva.

    É claro. Vamos ter que nos obrigar a ouvir Palocci ainda repetindo idéias e conceitos que nos chocaram nos dois mandatos de FHC. Mas uma diferença já parece clara: se é verdade que haverá uma atenção extrema com a política monetária, não é menos verdade que não estará aí o eixo determinante das decisões governamentais. Pois já é evidente que a prioridade vai se fixar nas políticas sociais, com relevo para o imediato combate à fome das amplas camadas marginalizadas da população. No combate à corrupção, com a suspensão, até auditoria, das obras em estradas. E na recuperação do conceito de solidariedade sobre o de competitividade, como mostrou a contribuição inicial das cooperativas agrícolas ao Fome Zero.

    Paro por aqui. Nada de estender demais o otimismo com o futuro imediato, cheio de obstáculos difíceis, mas não insuperáveis. Mas sem esquecer o lado bom das ''maldades'' iniciais. Acalmou-se o mercado especulativo predador, com seu imenso poder de fogo para a desestabilização da economia.

    [08/JAN/2003]

  • Caminhos minados

    Milton Temer

    Mais do que companheiro de sonhos e utopias, sou amigo e admirador de Raul Pont, ex-prefeito de Porto Alegre, e da senadora Heloisa Helena, nossa passionária. Considero legítimas suas perplexidades e até a indignação diante do anúncio de alguns nomes do primeiro escalão do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Certamente não correspondem ao que sempre vislumbraram - nesses 22 anos de luta do PT - com a implantação de um governo ''popular e democrático'' em nosso país.

    Sinto-me, portanto, inteiramente à vontade para retomar o debate sobre expectativas e limites deste governo Lula, com visão distinta da que eles vêm manifestando publicamente, dando mais uma de barato. Estou certo de que Lula não necessitava das alianças e da moderação que apresentou ao longo de sua campanha, para alcançar os 52 milhões de votos que o conduziram à Presidência da Republica.

    Mas o fato é que foi com essa aliança ampla, e com o discurso cuidadoso, que ele chegou lá, numa vitória recebida por todos como algo correspondente a uma simbólica queda da Bastilha. E não exagero. Quem acompanhou a apuração do segundo turno pela televisão, viu o que se passou na Cinelândia, aqui no Rio de Janeiro, ou nas principais avenidas e praças de todas as grandes cidades do país. De forma espontânea, era o povo na rua, num encontro com o palácio como não víamos desde as homenagens póstumas prestadas a Tancredo Neves, saudando o ineditismo histórico da entrega do Palácio do Planalto a um operário metalúrgico.

    Mas, simbologia da queda da Bastilha para quê? Para a imposição do receituário de um partido que continua de ''esquerda e socialista'' como o definiu seu ainda então presidente José Dirceu, numa reunião com as bancadas do Partido dos Trabalhadores no Congresso nacional? Pelo caráter da campanha, pelos limites do clima de ''paz e amor'', certamente que não. O mais certo é considerar que, pelo voto, o povo rejeitou o modelo marcante da década de 90. Modelo iniciado atabalhoadamente por um Fernando e cientificamente consolidado por outro, e que nos fez alcançar níveis de crescimento mais baixos do que os da chamada década perdida de 80, batendo folgadamente seus recordes de desemprego. A isso, e à ameaça do retorno da inflação, a despeito do combate constante que tudo justificava, deveu-se o voto transformado em grito de basta!

    No entanto, a rejeição quase consensual a um modelo não corresponde automaticamente a consenso sobre o projeto alternativo que deverá substituí-lo. Principalmente quando o território para construção desse projeto, para ser alcançado, obriga a travessia de um campo minado pelas armadilhas deixadas pelos tecnocratas derrotados, mas já prometidos às empresas privadas. Dos seus novos postos, estarão bombardeando o governo Lula, com exigências de soluções imediatas para o legado de imensos problemas que deixaram plantados na administração e nas contas públicas.

    Diante disso, o que exigir do pré-início de governo Lula? Enfrentamento imediato contra seus principais adversários históricos, os representantes do grande capital? Não creio. Seria parada dura demais, considerando o nível de organização social. O movimento sindical urbano e o MST - apenas para citar os dois eixos mais expressivos, ao lado da Igreja progressista e uma fragmentada sociedade civil -, entre eles, apresentam intensidades de mobilização muito distintas.

    Prefiro, então, dar um crédito de confiança à prudência do novo governo, que sinaliza corretamente a preferência pelo capital produtivo sobre o predatório capital financeiro especulativo. O anúncio de um modelo de crescimento que se faça com simultânea distribuição de renda e radicalização da democracia social é alentador. Se isso se concretiza, o setor assalariado se reforça e o processo político vai para um patamar mais elevado.

    Vale esperar, portanto, o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias, que chega ao Congresso em abril, com os eixos do que será prioridade a partir de 2004. Aí, espero, teremos o primeiro sinal de que a esperança realmente venceu o medo, e de que a composição governamental possível não é somente agente de uma limitada continuidade melhorada.

    Até lá, portanto, muita paciência. E solidariedade.

    [18/DEZ/2002]

     

    • Contencioso da transição

      Milton Temer

       

      A transmissão do mandato de Fernando Henrique Cardoso para Luiz Inácio Lula da Silva está gerando uma nova premissa na discussão do quadro conjuntural. A generalização do uso da urna eletrônica no processo eleitoral torna obrigatória a revisão dos prazos em vigor, pensados para o cronograma da contagem manual dos votos, com seus infindáveis recursos. A rapidez da apuração atual está nos condenando -- todos, jornalistas e leitores -- a mais de dois meses dessa especulação permanente em que se transformou o noticiário político. A mais de dois meses de angústia, principalmente, para o novo presidente da República, incapaz de navegar sem desgaste nesse clima de contradição insanável - entre o poder, reconhecido das ruas, e a impotência decisória institucional. Entre a legitimidade e a legalidade.

      No entanto, o mundo gira e a Lusitana roda, com o modelo derrotado pelo voto impondo, neste período, o ritmo da vida real. O presidente retirante implementa decisões sobre decisões, criando verdadeiro contencioso adicional à herança estrutural preocupante que deixa como legado, e o que aguarda a posse se obriga a comportamento cerimonioso, pois já não é mais um simples candidato.

      Nesta semana, por exemplo, estamos no curso de discussões com o FMI para a liberação de mais uma parcela de US$ 3 bilhões, dos US$ 30 bilhões que a instituição concedeu na nossa mais recente crise cambial. Uma das drásticas condições é a elevação do superávit primário de 2003, já previsto para incômodos 3,75% do PIB. FHC finalmente explicitou sua posição contrária, depois que Antonio Palloci, responsável petista na transição, manifestara desacordo com a exigência. Mas se depender da atual equipe econômica, o risco é permanente. Superávits para pagamento de juros e serviços brutais da dívida pública não menos brutal que construíram, eles sempre souberam produzir -- do corte de despesas na área social ao produto de mais uma privatização absolutamente desnecessária para o conjunto da sociedade, sempre têm alternativas.

      Há também a inaceitável decisão sobre a venda desse pacote de ações do Banco do Brasil, recentemente encaminhada pelo BNDES. Tal comportamento não é correto, para não dizer que não é ético. Um governo batido nas urnas, entre outras razões pela forma como conduziu privatizações anteriores, não pode fazer tal opção em momento de clara desvalorização nas bolsas. Como não pode nos brindar com o time de embaixadores de última hora, nada menos de 17, apenas para fechar espaços do presidente eleito, cuja política exterior certamente estabelecerá prioridades absolutamente distintas da atual. Como não pode, também, criar exílios dolarizados para delegados da Polícia Federal que o serviram partidariamente -- um deles, denunciado por criação de provas falsas contra Lula, numa CPI da Câmara.

      Não pode, finalmente, o atual governo, criar constrangimentos com essa proposta falaciosa de ''independência'' do Banco Central. Não foi por falta de independência que o BC tomou decisões dramáticas contra nossa economia nos oito anos de FHC. A mais gritante delas -- quem não lembra? --, propiciando a liberação de US$ 1,5 bilhão, na desvalorização cambial do início do segundo mandato de FHC, no episódio do Marka-FonteCidam. Independência, sim, ou estaríamos sendo no mínimo deselegantes com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, que, postado numa sala vizinha àquela que abrigava a decisão, dela só teria tomado conhecimento pelo que a imprensa divulgou depois. Não teria sido consultado. Como não podemos tirar crédito do que o ministro relatou de forma oficial em audiência pública na Câmara, só há uma explicação para a intensa movimentação de Armínio Fraga para colocar a independência do BC em forma de lei. Subordinar o novo governo aos ditames do famigerado ''mercado'', e garantir a manutenção da atual política monetária recessiva. O que seria interferência futura abusiva, inadequada para quem foi derrotado na eleição presidencial.

      [JB -13/NOV/2002]

       

    • Voltando aos assuntos

      Milton Temer

    Muita coisa ainda pode acontecer de hoje a domingo. Mas, a não ser que água comece a rolar ladeira acima, o povo brasileiro já decidiu seu rumo. Um rotundo não à última versão tupiniquim dos métodos e preconceitos macartistas que, em campanhas anteriores, e até com categorias e expressões próximas, foram utilizados contra Getulio, Juscelino e Jango. Os mesmos perigos da "instalação da anarquia", da "inflação desenfreada", e do patrocínio da "onda vermelha", dos anos 50 e 60, retomados agora contra Lula, com o acréscimo dos efeitos especiais de computador..

    Sei que alguns tucanos históricos podem se remoer com tal afirmação, mas lamento, e provoco o debate. O material apresentado na propaganda obrigatória de Serra é mais do que suficiente para a avaliação dos critérios de interpretação de democracia, vigentes em boa parte das elites brasileiras. Principalmente quando se torna previsível a transferência de sua hegemonia de poder a um representante dos de baixo, na pirâmide social. Vamos lá, pelos itens mais insistentes.

    Argentina, Venezuela, e a automática perspectiva do caos, com uma vitória de Lula, isso tudo beira o absurdo. Primeiro, porque a crise da Argentina não tem nada a ver com a da Venezuela. A primeira é exemplo acabado dos males provocados pela desregulamentação da economia, pelas privatizações ideológicas e pela submissão acrítica aos ditames do FMI. Estaremos tão mais próximos de tal situação, quanto mais nos mantivermos nos modelos semelhantes, que a instituição impôs tanto à Argentina quanto ao Brasil, nesta última década. A segunda tem sentido de seta oposto. É gerada pelo empenho dos setores privilegiados da sociedade venezuelana, com apoio já tornado público dos quadros mais reacionários do governo Bush, em desestabilizar o governo Chavez. Insistem num golpe antidemocrático, já desmoralizado numa primeira tentativa, contra um governo eleito pelo voto, e contra o qual não existe nada além de divergência programática. Juntar as duas situações é apenas prenúncio de comportamento igualmente antidemocrático no Brasil; de não reconhecimento do resultado das urnas. Não condiz com o passado de Serra.

    Os temores de Regina Duarte configuram produto natural do item anterior. Ter medo é prerrogativa dela. Mas transformar o sentimento pessoal da artista em rastilho de pânico coletivo, pela dramatização transmitida, por todos os canais de televisão aberta, a milhões de brasileiros, deixa de ser questão privada. É responsabilidade da campanha. E se a uma campanha pode introduzir tal clima de insegurança, autoritário e verdadeiramente aterrorizador é tentar impedir que a outra haja no contraponto. Por que Regina Duarte pode divulgar seu pânico e Paloma Duarte não pode dizer que esse pânico só interessa aos que querem lançar o navio no iceberg? Condiz, menos ainda, com o passado de Serra.

    Quanto à ausência nos debates, a grande ausente aí é uma análise de fundo sobre a administração FHC. Aí está a grande ausência nos debates, e não essa lengalenga sobre Lula ter que ir a um, ou a todos os debates que interessassem a Serra. Tirante as citações do candidato petista no pronunciamento de domingo, foram quase nulas as referências a mazelas desses oito anos, aos métodos condenáveis na obtenção de maioria parlamentar para aprovação da emenda da reeleição, ao aceleramento brutal das dívidas interna e externa. Passando, é claro, pelo custo social da dependência ao capital especulativo, como caminho único de sustentação para uma sempre instável estabilidade monetária, e pela privatização, plena de percalços, das empresas públicas estratégicas, e lucrativas, a despeito da utilização política. Isto, apenas para relembrar o mais óbvio –. Se Lula não se aprofundou, em função de sua tática exclusivamente propositiva, cabia a Serra fazê-lo, até para mostrar porque pretende ser o legítimo sucessor de FHC..

    JB (23/10/2002)

    • São outros quarenta

      Milton Temer

      Não há dúvida. A ação de 40 grandes gatunos de alto coturno e colarinho branco, que infestaram este nosso largo período de economia ''modernizada'', ''integrada com a globalização'', controlada apenas pela mão invisível do mercado, tem muito a ver com a atual vulnerabilidade cambial de nossa economia. Mas a raiz essencial de todo esse quadro está, certamente, em outros 40. Os 40 bilhões de dólares despendidos de agosto a novembro de 1998, no esforço para garantir a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, através da manutenção da falsidade ideológica da quase paridade do real com a moeda americana.

      Delfim Neto, defensor incontestável das políticas de superávit primário, dos subsídios à exportação e do equilíbrio nas nossas contas fiscais, de muito tempo, em seus artigos e intervenções públicas chega a afirmar que o Brasil quebrou aí. Nesse acordo derradeiro do primeiro mandato de FHC com o FMI.

      É, portanto, absolutamente inexplicável que isso nem de perto tenha passado pelas palavras ou idéias do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, em sua entrevista da semana passada. Uma entrevista coletiva, convocada por ele mesmo depois de um almoço no Palácio do Planalto, em que tudo o que propôs foi, coincidentemente, aquilo exigido pela campanha de Serra como sua última tábua de salvação - a realização de debates entre os candidatos para que se explicitem os planos futuros com respeito aos compromissos assumidos internacionalmente.

      Ora, não é preciso anunciar absoluta isenção para defender a campanha de Lula nesse caso. Se no primeiro turno alguém foi por demais propositivo - enquanto, por conta da iniciativa dos marqueteiros de Serra, o pau comia entre ele, Ciro e Garotinho -, esse alguém foi Luiz Inácio Lula da Silva. E não foram poucas as insinuações, internas ou externas ao PT, de que ele estaria até exagerando na dose, sem se preocupar com as denúncias contras aquilo que seu partido considerava mazelas dos últimos oito anos de hegemonia tucana. Mais ainda; nunca, após o período de campanha pela mídia eletrônica, um candidato amplamente favorecido pelas pesquisas participou de tantos debates. O exemplo maior dos tucanos, o atual presidente, nunca o fez desde que passou a ter situação de favorito em duas disputas.

      Lula não se nega a debates no segundo turno. Mas com várias campanhas a governador em jogo, além da sua, e tudo tendo que se resolver em duas semanas, é absolutamente legítimo que reivindique um único debate.

      Se Armínio Fraga sai então de seu habitual comportamento discreto para entrar no bate-boca, transmitido ao vivo pela própria emissora oficial do governo, com jornalistas que não se fartaram de elogiá-lo durante seu período de presidente do Banco Central, é porque algo de estado-maior foi decidido entre os que defendem Serra. Repetindo, aliás, um erro lá do início do primeiro turno, do qual a campanha governista logo se afastou, quando se falou em argentinização, caso Lula vencesse. O que levou a especulação a índices iguais aos de hoje, e que terminavam por comprometer a própria equipe atual. O desespero parece estar levando ao tudo-ou-nada, em que a campanha corre risco, mas a nação é quem paga a conta.

      Diante desses movimentos, vale uma especulação final. Quem nos garante - estivesse Serra na condição de favorito para o segundo turno - que o Tesouro não seria mais uma vez mobilizado para, de novo com o apoio do FMI, gastar outros 40 bilhões de dólares, mesmo que isto nos custasse a absoluta submissão do Brasil aos interesses do governo Bush, na Alca, na base de Alcântara e em sua agressiva política internacional?

      Ainda bem, para o país, que Lula é o favorito. O preço, a se confirmar tão logo passe a onda de resgate dos títulos do governo com correção cambial, poderá ser bem mais baixo.

      [16/OUT/2002]

      Atenção às sirenes

      Milton Temer

      Só não vê, ou não ouve, quem não quer. Renúncia da senadora Heloisa Helena à candidatura ao governo de Alagoas; crise na aliança PT-PL justamente em Minas Gerais, Estado em que os moderados do Partido dos Trabalhadores inventaram a ''normalidade'' da anacrônica composição com o bizarro Partido Liberal - onde ninguém sabe o que é partido e o que é templo religioso; e principalmente os números das pesquisas divulgadas por Vox Populi e Datafolha. Soam as sirenes de alarme. Levadas em conta, podem acertar os rumos na campanha de Lula.

      No plano estadual, os maus resultados de Benedita da Silva -- amplamente ultrapassada por Rosinha Matheus, e já enfrentando um empate técnico com Jorge Roberto da Silveira pela outra vaga num possível segundo turno -- comprovam apenas que, longe de garantir melhores condições eleitorais, a assunção biônica ao aparelho do Estado pode ter gerado condições dramáticas para sua candidatura ao governo. Desse drama anunciado, nem quero me ocupar.

      O que nos interessa é a questão nacional. A subida de Ciro não pode ser interpretada na forma simplista na qual alguns próximos de Lula mergulharam logo após a divulgação dos números. O fato de ele ter alcançado Serra - o preferido do ''mercado'' - não garante alívios a Lula, que sairia da linha de fogo do establishment. O que vale é se questionar sobre a razão da ascensão em momento decisivo da disputa, pois a partir de agora Ciro vai contar com uma exposição muito mais ampla.

      E aí entra o ponto fulcral. Não é só pela exposição, mas é principalmente pelo que tem dito que Ciro subiu enquanto Lula estacionou ou perdeu um ponto. Ciro foi para cima da equipe econômica. Não hesitou em atacar os tecnocráticos, mas simbólicos para o conjunto da população, pontos críticos do debate atual. Desqualifica as ''metas de inflação'', fala em reforma tributária com linhas claras de isenção do salário e de taxação da especulação, enfrenta o debate da dívida pública sem subterfúgio na possibilidade de renegociação. Toma, enfim, uma série de bandeiras que fizeram de Lula o principal nome da oposição, e começa a ocupar espaços que Lula tinha que herdar com a crescente desilusão do povo brasileiro em relação ao modelo atual.

      É claro que Ciro, em função de sua própria história, pode dizer coisas que, ditas por Lula, causariam terremotos em espaços freqüentados pelo grande capital. Mas, e daí? Lula pode fazer um governo minimamente democrático e popular sem alvejar interesses dessa gente? E essa gente -- os banqueiros especuladores em especial -- vai abrir a guarda para Lula, tendo atrás de si o simbolismo da representação política e social de seu próprio partido? Só se for idiota. Ou, o que é inimaginável, se Lula lhe garantir a manutenção dos lucros e privilégios, contra a concretização de um governo popular e democrático.

      Então, não resta saída à campanha petista. É melhor seguir as sugestões do marqueteiro - pelo que mostra nos programas de TV, com o jovem empolgado numa assembléia de estudantes _ do que ouvir os moderados do entourage de Lula, no PT e no Instituto da Cidadania - pelo que fazem de concessões sucessivas em seus textos e ''cartas''.

      O PT é forte e vence onde afirma seu programa e sua militância empolgada (Rio Grande do Sul e Porte Alegre como principais exemplos). O PT é débil e é derrotado onde faz concessões programáticas (como em Brasília, onde Cristovam Buarque se aliou até com o PFL e terminou derrotado.

      (JB, 9/7/2002)

      Oriente Médio: Guerra? Não. Agressão

      Milton Temer*

      Quando se discute o conflito no Oriente Médio, algumas premissas têm que ser estabelecidas.

      1- Não vale invocar anti-semitismo, ou preconceito antijudaico, para evitar enfrentar qualquer crítica mais ou menos severa a decisões e atitudes de eventuais governos de Israel. Ninguém, salvo o próprio povo de Israel, pode responder pelo fato de a estrela de Davi, bem simbólico maior da religião judaica, ser também o símbolo mais evidente do Estado de Israel – um Estado que, embora institucionalmente democrático, é deliberadamente não-laico e, o que é inimaginável, mantém legislação que legaliza a tortura a suspeitos de atos atentatórios à defesa nacional . Por conta disso, são tanques e blindados com estrelas de Davi nas bandeiras presas às suas antenas de rádio que, em "caça aos terroristas", passam por cima de civis desarmados dentro de suas próprias casas nas cidades e vilas do território ocupado da Palestina.

      2- Não estamos analisando um confronto entre dois Estados parelhos em possibilidades materiais e bélicas. Estamos, sim, diante da investida de uma das maiores máquinas militares do mundo – helicópteros Apache de última geração, caças F-16, tanques e buldozers poderosíssimos, além de reconhecida posse de armamento nuclear – contra populações civis de um território descontínuo, ocupado por uma centena de postos de controle militares (os chamados check points israelenses entre as vilas e cidades palestinas, e não somente na fronteira que separa os dois territórios nacionais).

      3- É falacioso tratar, em pé-de-igualdade, como atualmente é feito através dos principais meios de comunicação mundiais – a CNN americana, com destaque – a ocupação militar israelense e os atos suicidas palestinos em cidades de Israel. Não são irmãos gêmeos, contemporâneos, de uma mesma realidade trágica. Não. A ocupação militar israelense é a geradora do caldo de cultura em que se geram os terroristas fundamentalistas, ou os jovens universitários desesperados com o absoluto desencanto existencial, em função da destruição de suas possibilidades de vida profissional e de lazer, com um mínimo de liberdade e dignidade. E cito autor israelense para reforçar meu ponto-de-vista – Ran Há Cohen, no "Jewish Peace News", com endereço eletrônico conhecido: thebungle@carthlink.net. O que diz ele no seu ensaio sobre "Terrorismo vs. Ocupação", onde responde a leitores que o criticam por " não escrever sobre terrorismo palestino contra Israel".

      (...) "O terrorismo é o termo mais popular na cobertura da mídia no Oriente Médio, e as pessoas ainda querem que eu fale sobre isso também. Por que isso? Creio que é porque essas pessoas não querem que eu fale sobre um outro termo: ocupação. Notem com que raridade esse termo é usado quando o assunto em pauta é o conflito israelo-palestino. De fato, quando se ouve alguém dizer "terrorismo" insistentemente, fique certo que ela não usará o termo "ocupação".

      4- Não existe solução possível, capaz de gerar uma convivência fraterna e solidária entre os dois povos que têm tudo para construir as mais avançadas sociedades democráticas da região, enquanto se mantiver, por parte dos sucessivos governos de Israel – e aí incluindo os trabalhistas que antecederam ou sucederam os fundamentalistas Shamir, Netanyahu e Sharon— a política de implantação de assentamentos artificiais de judeus ortodoxos em terras confiscadas ao Estado ou a particulares palestinos.

      Acertados nessas preliminares, vamos aos fatos que pudemos viver, por conta da delegação da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, em Jerusalém, Tel Aviv, Ramalah e Jenin.

      Encontro com Shimon Perez

      No dia seguinte à chegada a Jerusalém, a delegação de parlamentares brasileiros já tinha um encontro com o ministro das Relações Exteriores de Israel, Shimon Peres, personagem referencial dos social-democratas imensamente incomodados pela convivência com o governo Sharon, fundamentalista de direita.

      Com experiência das agendas apertadas que o parlamentar vive em Brasília, sempre em dificuldades para receber delegações estrangeiras que constantemente visitam nosso Congresso, a disponibilidade de Peres, no bojo da crise do cerco a Arafat, do início das investidas contra Jenin e Belém, não deixou de causar uma certa perplexidade. Será que o Brasil tem tanta expressão internacional, ou Peres, afastado do comitê de operações mais restrito do governo, não tinha tanto o que fazer? Para mim, pessoalmente, prevaleceu a segunda leitura, embora Peres não deixasse passar, pelas palavras ditas, nenhuma sensação de isolamento político. Mas a voz tênue com que tenta nos convencer que concorda com a definição das linhas de ação do governo, como se delas tivesse participado ativamente, denuncia a insegurança.

      – Como o senhor, na condição de Prêmio Nobel da Paz, explica sua participação numa coalizão governamental em que o primeiro-ministro é criticado – à exceção, é claro, dos Estados Unidos e seus mais fiéis carregadores de bagagem – por quase todos os governos do mundo, principalmente os da União Européia, pela ocupação violenta de territórios palestinos?

      – Não sinto nenhum desconforto. Não estamos atacando populações civis. Estamos apenas caçando terroristas.

      – Mas como o senhor reagiria se o Partido Trabalhista inglês apoiasse um governo conservador inglês que decidisse pela invasão da Irlanda, para "caçar terroristas" do IRA?

      É aí, enfim, que Perez externa suas debilidades políticas. Seus "desconfortos" ocultos...

      – É claro que existem algumas diferenças com a maioria governamental. Sou a favor do reconhecimento da Cisjordânia como território palestino, mas não absolvo Arafat pela derrota nas negociações de Camp David, que permitiriam tal solução.

      Mas vamos ter claro o seguinte: não há por que traçar de Peres uma imagem positiva, por princípio, indelével. Prêmio Nobel da Paz, seus movimentos têm ampla exposição mediática. Mas quem o conhece na intimidade, não o pinta da mesma forma, como deixa objetivamente transparecer a carta aberta enviada por seu amigo de 24 anos, e assessor por quatro, Gideon Levy, publicada no "Ha’aretz", o principal jornal israelense, em 24 de janeiro deste ano, sob o título "Diga a verdade Shimon":

      (...) "Em 1989,quando você era ministro da Economia no governo Shamir e a primeira Intifada estava em fúria, utilizei estas páginas para escrever "Uma carta a um ex-patrão". Naquela época, eu lhe disse que "pela primeira vez em sua vida, nada lhe restava a perder – exceto a perspectiva de sumir no ar rarefeito". Isso foi depois que você guardou silêncio face à conduta das IDFs – Forças de Defesa Israelenses – com relação à Intifada, face à continuação da ocupação e à recusa obstinada de Israel em reconhecer a OLP como representante dos palestinos. Naquela ocasião, eu acreditava que você pensava de modo diferente de Yitzhak Shamir e Yitzhak Rabin (conhecido à época como "quebra-ossos"), mas que você não tinha apenas coragem suficiente para se manifestar.

      "Onze anos mais tarde, em 200, escrevi-lhe uma outra carta aberta. Isso foi depois de Oslo e do assassinato de Rabin, e depois que você tinha perdido outra eleição – dessa vez, para o cargo de presidente. Na época, eu disse: "Muitos israelenses o vêm agora como uma pessoa diferente. Para eles, você representa a esperança de alguma coisa diferente". E, agora, quando lhe escrevo outra vez, tenho de lhe dizer: você já não representa a esperança de nada".

      Pela continuidade da parceria com Sharon, Perez não tem, definitivamente, como contestar a justiça da indignação de Gideon Levy.

      Encontro com Sari Nosseibek

      Antes de tudo, quem é Sari Nosseibek?

      Os brasileiros o conhecem por uma longa entrevista às páginas amarelas de "Veja". É um professor de universidade em Jerusalém; uma referência entre os mais moderados do movimento de libertação palestino. Considera radical o comportamento dos dirigentes de seu governo, onde ocupa o cargo de ministro para os Assuntos de Jerusalém, insinuando suas responsabilidades em não impedir a participação de jovens desarmados, nos confrontos de rua ao longo das Intifadas. E o encontro com ele, realizado no mesmo dia em que havíamos conversado com Peres, viria a propósito. Porque ninguém melhor do que Nosseibek para reforçar os argumentos de Peres quanto à classificação de Arafat como responsável pelo fracasso de Camp David.

      Mas não foi o que sucedeu.

      Nosseibek, o mesmo que fala de radicalismo pelo desprezo das lideranças palestinas ao espírito de negociação, não estendia essa avaliação, certamente, às discussões em Camp David, quando faz tais críticas. Sobre o acordo apadrinhado por Clinton, ele não tergiversa: "Fosse eu o negociador, e teria tomado a mesma decisão. Também teria denunciado as propostas israelenses, por estarem muito abaixo do mínimo exigido para que fossem aceitas pelo nosso povo".

      E Nosseibek não se referia ao essencial. Quando Peres, na sua conversa da manhã, se lamentava de Arafat por não haver compreendido que ao não aceitar tudo o que lhe havia sido ofertado pelo governo Barak, em Camp David, simplesmente omitiu o essencial, para além do bem abaixo do mínimo na oferta de devolução de territórios ocupados. O governo trabalhista de Barak-Peres em nenhum momento interrompeu o que hoje se constitui no mais grave empecilho para uma solução justa para os palestinos – a instalação forçada dos assentamentos artificiais que Israel implanta, por exigência do setor judaico fundamentalista, o mais ortodoxo, em áreas confiscadas ao Estado e a particulares palestinos.

      São tais assentamentos que, implantados aqui e acolá, tornam quase impossível o estabelecimento de uma linha de fronteiras, no momento em que houver condições concretas para a suspensão do conflito. Eles correspondem a uma espécie de contraponto dantesco ao êxodo que, desde 1948 – ano do nascimento do Estado de Israel, a partir de uma resolução da ONU –, foi imposto a milhões de palestinos, com suas casas, colheitas e comércios completamente arrasadas. Da mesma forma que o retorno desses palestinos não é mais exigido no conceito de "paz justa" que se passou a utilizar nas discussões para busca de solução para a guerra, o problema gerado pela pulverização de assentamentos terá que ser solucionado a partir de seus desmontes ou, o que parece mais lógico, de transferência para as populações palestinas, até como compensação pela não restituição das terras e reconstrução de habitações destruídas dos refugiados já instalados em outros países.

      Como reage o povo palestino?

      Aqui Ariel Sharon, velho militante da concepção do "Grande Israel" – que nos assustou com uma entrevista no já citado "Ha’aretz", em que questionava a legitimidade da Jordânia como país – invade a Esplanada das Mesquitas, cercado de guarda-costas, em ato francamente provocativo, dá o ponta-pé inicial na série de Intifadas que vieram justificar a radicalidade da repressão militar atual.

      Naquela manifestação, Sharon se cacifava junto à direita judaica, ao prenunciar o governo agressivo e ostensivamente discriminatório em relação aos palestinos, que terminou implementando. Abriu espaço para a irracionalidade que se alastrou em ambos os lados, ao colocar a disputa nos termos que interessavam aos fundamentalistas. Do lado palestino, à medida que jovens, mulheres e crianças se viam atiçados às manifestações de rua, onde pedras e estilingues eram respondidos com fogo de artilharia dos tanques, ou de eficientes metralhadoras dos inexperientes reservistas da infantaria israelense, as perdas de vidas começaram a entrar no quotidiano.

      A morte se banalizava, o que facilitou o crescimento dos que, do lado palestino, têm formulação doutrinária tão fundamentalista quanto a de Sharon e seus fanáticos, pelo lado judaico. Consolidaram-se os dois pólos de uma mesma visão reacionária do mundo, fundada numa visão exclusivamente religiosa, onde a vida material conta pouco. O Hamas recebia de presente as condições subjetivas para a criação dos jovens suicidas. Sharon os gerou, e deles necessita para a implantação da sua lógica exterminadora de todo o povo palestino, objetivo maior de sua concepção de estado judaico – "uma terra sem povo, para um povo sem terra".

      E em alguns exemplos concretos que vivenciamos – Ramalah, Jenin e check points— , isso fica evidente. Tanto o da brutalidade dos partidários de Sharon, quanto o da coragem e solidariedade de árabes e judeus progressistas em defesa do povo palestino. Vamos cuidar de cada um, por partes.

      Ramalah

      Cidade que abrigava o QG de Yasser Arafat, centro governamental da Autoridade Nacional Palestina. Foi teatro de combates violentos, que destruíram bens materiais, mas não chegaram a desfigurar totalmente seu aspecto urbano extremamente simpático. Pelo menos em sua região central, onde pudemos transitar. Em ruas arborizadas, com prédios de meia altura, o contraste entre o céu azul e as paredes amarelas das pedras de Jerusalém – que caracterizam as construções locais – era reforçado pelo sol brilhante e forte, mas bastante agradável.

      Ocupada, foi transformada, mais que em gueto, num verdadeiro campo de concentração. No dia em que a visitamos, parecia uma cidade fantasma. Casas com janelas fechadas, ou varandas encobertas por cortinas, eram as celas dessa verdadeira penitenciária. No centro, dos prédios mais altos confiscados pelas forças de ocupação, a bandeira de Israel definindo o ponto de concentração de franco atiradores que dali controlavam o rigor do toque de recolher, capaz de se estender por até 60 horas, nunca durando menos de dois dias para cada interrupção de poucas horas, quando os que ainda tinham algum dinheiro podiam se revitalizar nos que ainda tinham alguma mercadoria para vender.

      Os militares israelenses não hostilizam a coluna de pacifistas estrangeiros que se desloca armada de bandeiras brancas, numa das mãos, e passaporte estrangeiro, na outra. Apenas controlam à distância.

      O objetivo é alcançar o QG de Arafat, na ocasião vivendo uma situação de alimentação e higiene absolutamente dramática. Era o que nos informava, por telefone, Mário Lill, então participante do escudo humano de voluntários acampados no prédio, para garantir a segurança de Yasser Arafat, humilhado e ameaçado pelos tanques estacionados a poucas dezenas de metros do seu gabinete.

      Dali não passamos. Soldados extremamente jovens, e extremamente tensos, transmitindo mais insegurança e descontrole do que propriamente ordem unida, não nos permitiam o abuso de tentar passar a barreira. Um deles poderia atirar, sob o pretexto de que um de nós poderia ser um homem-bomba – verdadeira fixação paranóica que lhes parece ter sido injetada.

      Mesmo nessas condições adversas, algumas mulheres palestinas se aventuravam, nas portas das casas, a transmitir mensagens pelos microfones e câmeras das equipes de TV que nos acompanhavam, todos paramentados em capacetes protetores e coletes à prova de balas. E do que diziam aos borbotões, vinha a tradução de algum de nossos parceiros letrado em árabe. Arafat, mergulhado em crises de liderança antes das Intifadas, passava a simbolizar a liderança unificadora de todo o povo palestino, desde que não cedesse aos invasores. Não deveria entregar os militantes palestinos que o acompanhavam na área cercada, e que os israelenses queriam capturar a qualquer preço. Se entregasse, a liderança entraria em crise novamente. Os acordos que posteriormente veio a aceitar, nesse sentido, estão na raiz do recrudescimento do movimento oposicionista à sua liderança.

      Ou seja; longe do espírito de rendição, aquela ocupação gerava uma evidente indignação e ódio aos ocupantes.

      Check Points

      Mal recuperados dos momentos traumáticos de Ramalah, novo símbolo da violência nos afronta – a necessidade de transpor um dos pontos de controle que, nas estradas e saídas das cidades palestinas, submetem os seus habitantes a humilhações permanentes. Uma super guarita, com um muro de concreto, tipo gelo baiano em grandes dimensões, serve de filtro que torna longuíssima e difícil a ida para o trabalho ou escola que esteja na cidade vizinha. Um filtro conduzido pelos reservistas quase meninos, tão aterrorizadores quanto aterrorizados, separando maridos de mulheres e de filhos aos gritos de "um de cada vez". Mais uma fonte de ódios e recalques cada vez mais dificilmente superáveis.

      De retorno ao hotel, a consulta ao mapa da Palestina, no prosaico guia turístico de espetáculos semanais que ainda continuam a ser teimosamente impressos com indiscutível qualidade editorial, espanta ver aquela centena de pontos azuis sobre o fundo amarelo dos limites territoriais palestinos. São os check points. Tão odiados quanto os assentamentos artificiais de judeus ortodoxos ao lado dos centros urbanos, maiores ou menores, da Palestina. São os símbolos visíveis, junto com a bandeira nacional onde pontifica a estrela de David, da opressão do exército de ocupação israelense.

      Enquanto tais símbolos não saírem do território palestino, consolidam-se as condições para que não se encerre o ciclo de desesperados em seus ataques suicidas contra as cidades de Israel.

      Jenin

      Foram 50, 100 ou 500 mortos, em Jenin? O que aconteceu com grande parte da população civil desarmada, dentro de suas casas, por conta da marcha batida dos tanques e buldozers, quebrando paredes, derrubando portas, passando por cima dos móveis das salas e quartos, sem verificar, antes, se havia ali um velho, uma criança ou alguma mulher em estado de pânico?

      Nunca vai se saber, porque o governo Ariel Sharon tem poderes insuperáveis. Seu governo, sob suspeita de responsabilidade em inúmeras denúncias de massacre sobre as populações civis, inexplicavelmente tem o direito de barrar a comissão investigativa de alto nível que a ONU já havia nomeado. Inexplicavelmente, não. Diferentemente de Miloscevic, Sharon é da entourage do governo Bush – o autor da máxima do "quem está comigo é do bem; quem está contra é do mal". Faz parte dos que têm direito a bombardear o que bem lhe aprouver, sob o pretexto de "eliminar os focos de terrorismo". Mesmo que, para isso, exerça um terrorismo mais intenso ainda – mais ou menos na lógica que permitiria ao torturado poder agir como torturador de seu algoz, por direito de vingança.

      Essa leniência em relação aos abusos de Sharon é inqualificável. Sem tentar estabelecer qualquer paralelo, o que levou Miloscevic às barras do Tribunal internacional que hoje o julga, não era menos do que o já apurado sobre Ariel Sharon. E se dúvida houvesse, o relatório da Human Rights Watch, organização não-governamental americana que, diferentemente da delegação da ONU, teve permissão para entrar em Jenin., liquida com ela.

      Não houve massacre, é a conclusão do que relatam, por diferença de cifras entre o que se denunciava e o que se comprovou. Mas houve, indiscutivelmente, crimes de guerra – no mínimo, assassinato de civis inocentes e utilização de escudos humanos palestinos para proteção dos bravos guerreiros de Israel. O governo Sharon não contestou a conclusão, e ainda tentou festejar pelo fato de a HRW, consentida por ele, não ter podido comprovar o massacre.

      Aliás, só teria dúvida sobre o que se cometeu de brutal e irracional sobre a população civil de Jenin, quem não tivesse se dado ao trabalho de ver as fotos após a abertura da cidade aos órgãos de imprensa e à Cruz Vermelha, até então interditados no acompanhamento dos combates, e no resgate de feridos. Se em Ramalah, primeiro ensaio, houve quem guardasse cadáveres dentro de casa por impossibilidade de buscar socorro em horas de toque de recolher, não é mentalmente saudável imaginar o que deve ter ocorrido em Jenin.

      Não vimos, mas pudemos ter o sentimento do que ali ocorrera, quando participamos – em linha de frente, como vários parlamentares estrangeiros presentes – da marcha em que milhares de pessoas, caminhando por oito quilômetros até chegar às portas da cidade, forçavam a passagem para uma coluna de 30 caminhões com víveres, remédios e água para os habitantes da cidade absolutamente isolada do resto do mundo. A reação dos tanquistas e infantes israelenses, em Jenin, não era distinta da dos que cercavam o QG de Arafat em Ramalah. Gritos e impropérios, antecipando ameaças de represália imediata, caso não houvesse recuo.

      E aí pudemos viver os momentos mais emocionantes da solidariedade internacional. No confronto com a barreira armada até os dentes, pacifistas das mais diversas partes do mundo comprovavam o espetáculo humanista comovente, propiciado pelos jovens que, estrela de Davi, pacífica e solidária nas mochilas, gritavam em hebraico e em árabe os slogans, de mobilização solidária ao povo palestino encerrado em Jenin, e contra os tanques encimados por estrelas de Davi, de guerra, que lhes impediam a passagem.

      Os militares israelenses cederam. Parcialmente, mas cederam, diante da conclusão lógica – diante das câmeras de televisão que acompanhavam a imensa manifestação, não poderiam cometer a loucura de disparar.

      Proibiram a passagem dos militantes a pé, mas autorizaram a entrada dos caminhões.

      A saída; onde está a saída?

      Estamos chegando ao que interessa – existe, ou não, possibilidade de solução pacífica para o conflito entre Israel e Palestina?

      De pronto, a resposta não pode ser otimista.

      Os fatos consumados, o redesenho das linhas de separação fronteiriça, os extensos períodos de ocupação militar israelense, com todos os abusos daí conseqüentes sobre as populações civis, nos levam a ter muita dificuldade de ver as partes, por moto próprio, sentadas frente a frente numa mesa de negociações.

      Mais difícil ainda, porque o governo Sharon conta com o apoio, para o que der e vier, das elites políticas norte-americanas. No contexto atual, isto se agrava. Não só pelo 11 de setembro, e seus desdobramentos irracionais, como pela própria linha doutrinária que orienta as decisões do governo Bush (para as quais, aliás, o 11 de setembro foi de extrema utilidade), de absoluto desprezo aos movimentos que não venham no estrito interesse dos grupos econômicos mais reacionários, que lhe garantem a cobertura total, e sempre simpática, das grandes agências informativas.

      E pior. Porque no mundo de hoje, liquidado o campo do, digamos, "socialismo real" – se assim se podia caracterizar o regime soviético –, desapareceram os contrapontos ao estabelecimento da hegemonia do grande Império ianque. Desapareceu o equilíbrio relativo na Assembléia Geral e no Conselho de Segurança da ONU. A própria OTAN – independentemente de ser instituição com ampla maioria de potências européias – se transformou numa espécie de apêndice do Departamento de Defesa americano. Principalmente pelo papel subalterno, de porta-voz dos interesses da Casa Branca, que ali é desempenhado pelo representante do governo britânico de Tony Blair, hoje no cargo de secretário-geral.

      A saída tem, então, que ser encontrada por outro caminho. E este caminho certamente passa pela União Européia, atualmente os principais parceiros econômicos de Israel – onde os ingleses não têm assento –, e de onde saem as mais concretas manifestações oficiais de indignação contra o governo Sharon. Inclusive, com ameaças de sanções econômicas radicais.

      É a União Européia, mais o conjunto de governos árabes, crescentemente pressionados por seus povos, que pode impor aos Estados Unidos o recuo no apoio incondicional a qualquer abuso de Sharon. É daí que pode sair o caminho alternativo, traçado pela proposta recente da Liga Árabe, e aceita pelos palestinos:

      a- Reconhecimento das fronteiras de 1967.

      b- Retirada das tropas israelenses para os limites dessas fronteiras.

      c- Envio de uma Força Internacional de Paz que garanta o estabelecimento de um equilíbrio mínimo no tabuleiro de dispositivos militares par a concretização, aí sim, de uma solução definitiva, que jogue as lembranças dos atentados suicidas, pelo lado palestino, e dos tanques e buldozers israelenses, sobre populações civis objetivamente desprotegidas, para o cenário de um passado que ninguém quererá mais ver de retorno.

       

      *Milton Temer, juntamente com os deputados Hélio Costa (PMDB-MG) e Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP), esteve em Israel e nos territórios ocupados da Palestina, em missão de solidariedade da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, da Câmara dos Deputados.

      (maio de 2002)

      O radical cobra contradições do PT

      Entrevista de Milton Temer ao JB em 19/2/2002

      Ele se autodefine como um reclamão incorrigível e resolveu, mais uma vez, fazer barulho. Agora, o deputado federal Milton Temer, do PT, grita contra a provável aliança entre o partido e o PL do senador mineiro José Alencar, megaempresário do setor têxtil. Acredita que a união tira a força do discurso petista, de esquerda, e não será capaz de render votos a Luiz Inácio Lula da Silva. ''É como cruzamento de cavalo com vaca: não puxa carroça nem dá leite'', define.

      Temer critica o comportamento de Lula e de dirigentes petistas. Cobra clareza de propostas, sobretudo em relação ao sistema financeiro. ''Temos que dizer que vamos tirar dinheiro dos bancos para bancar nossos projetos sociais'', prega. ''O Olávo Setúbal (dono do banco Itaú) tem ódio do PT. Se deixar de ter, ou ficou louco ou o PT mudou.''

      Oficial da Marinha cassado pelo regime militar em 1964, ex-comunista, jornalista, Temer não pretende renovar o mandato parlamentar pela terceira vez. "Chega um momento em que aquele deputado que está lá todo o tempo marcando em cima tem que ser substiuído", anuncia. Escalou os candidatos a "chatos de plantão": Lindberg Farias e Chico Alencar. "Eleitos, podem me substituir muito bem", prevê.

       

      Partidão

      O PT está incorporando os vícios históricos do Partidão (PCB). Quando concebiam a política de alianças - que acabou se esvaindo - , os comunistas acreditavam que a revolução se constrói com a união da classe operária e os camponeses com a burguesia nacional. Primeiro, enfrentar o imperialismo. Depois, fazer a revolução. O PT cresceu afirmando outra lógica. Hoje toma esse caminho de forma empírica, empurrado por uma falsa lógica eleitoral. Não vai trazer mais votos, como não levou para o Partidão. Com esse discurso, não é preciso votar no PT. É melhor votar em seus representantes autênticos.

      Aliança PT-PL

      Na aritmética uma soma é sempre positiva. Na álgebra, que é mais complexa, não. Isso parece com casamento de cavalo com vaca: nem puxa carroça nem dá leite. Pior: se acontecer, virá um filho enjeitado. O PT perderá credibilidade. Lula está voltando às fábricas pela porta do patrão, de mãos dadas com José Alencar, e colocando os militantes para fora. Não se pode nem dizer que o interesse é pelo tempo de TV - são só 46 segundos. Depois do que falamos do PSDB quando, em 1994, se aliou ao PFL, como vamos justificar a aliança com a Igreja Universal e o PL? O PSDB defendia a aliança para entrar nos rincões do país. Deu no que deu.

      Igreja

      Grande parte da base do PT não vem de partidos comunistas, mas de setores católicos ligados à Teologia da Libertação. Não receberá bem uma aliança com um partido controlado pela Igreja Universal do Reino de Deus. Vamos ser criticados, veja só, pelo (governador Anthony) Garotinho, que se diz um socialista e critica os que fazem alianças com igrejas.

      José Alencar

      É um homem de bem, mas não tem qualquer expressão nacional, nem no Congresso. Aliança com o capital produtivo não se faz escalando um de seus representantes como vice, mas com propostas claras.

      Bancos

      Pergunto: de onde o PT vai tirar dinheiro para os projetos sociais? Vamos ter que tirar dos bancos. Ou não? Aí vem o Garotinho e entrega um programa que (o economista) Celso Furtado elogia. Na primeira linha diz: vamos atacar a taxa de juros e a taxa de lucros dos bancos. Enquanto isso, os economistas do PT ficam tergiversando. Queremos o quê? O apoio de Olavo Setúbal? Ora, ele tem um ódio ideológico, visceral ao PT. E o dia em que deixar de ter, ou bem ficou maluco ou bem o PT mudou de posição.

      Elites

      Quando você tem Guido Mantega (economista ligado ao PT) dando garantias aos banqueiros, quando você tem Cristovam Buarque (ex-governador do DF) indo ao FMI perguntar se dirigentes não querem ter um encontro com Lula, cria-se uma situação que propicia ao Paulo Delgado (deputado federal do PT mineiro) sentar-se com Arthur Virgílio (secretário-geral da Presidência), para fazer acordos. Virgílio é o homem do toma-lá-dá-cá do governo. A classe dominante brasileira não é idiota. Só vai apoiar Lula quando ele disser: sou a favor da abertura econômica total, da entrega do que resta das empresas estatais, do Banco do Brasil, da Petrobrás.

      Garotinho

      Quem inventou Garotinho foi o Lula. Ele não seria nem governador se não fosse o apoio do PT. E esse apoio foi dado com a violência da imposição de seu nome goela abaixo do PT do Rio. Quando Garotinho se referiu ao PT como ''partido da boquinha'', uma convenção determinou a saída dos petistas do governo. Lula chamou o PT do Rio de irresponsável.

      O melhor vice

      Por que não discutir com o Suplicy para ele ser vice do Lula? Pela origem aristocrata, faria um bom contraponto com o candidato de origem operária. E Suplicy tem força de voto própria. Aparece nas pesquisas nacionais com 9%.

      Vida parlamentar

      Há um fator trágico: a acomodação dos partidos de esquerda à vida parlamentar. Na medida em vão ficando muito tempo no Legislativo, mesmo os de esquerda entram no jogo da institucionalidade. Em 1994, metade da bancada do PT, seguindo recomendação da CPI do Orçamento, se recusava a fazer emendas individuais. Hoje, só dois ou três não fazem. Os prefeitos do PT pedem. E a reprodução do mandato se torna mais importante que a defesa de princípios. O PT começa a se tornar o partido das administrações locais. E, enquanto não tem o poder central, fica condicionado a acordos, pela injustiça do sistema tributário. Os parlamentares vêm com a ótica das administrações locais. Nada pior para o parlamento do que a mentalidade distrital.

       

    • O ovo da serpente

      Milton Temer

      Pois é. O até então quase intocável sistema financeiro privado — espaço de enriquecimento de privilegiados banqueiros brasileiros — começa a entrar na alça de mira do que ainda resta de jornalismo econômico, não oficialista, na imprensa brasileira.

      Demorou. Se os lucros da especulação começam a se tornar publicamente escandalosos; se a cobrança de taxas por serviços prestados gratuitamente antes do Plano Real começa a se revelar fonte de lucro significativa; se os privilégios com isenções tributárias injustificáveis começam a se tornar inaceitáveis — não só pelo assalariado comum, com seus impostos invariavelmente cobrados na fonte, mas também pela parte do capital que se manteve na área da produção — , tudo parece ter explodido com a última manifestação de soberba desse setor dominante da economia e da sociedade brasileira.

      Quem não se indignou com a iniciativa jurídica de ver contestado, diante do Supremo Tribunal Federal, o direito que os cidadãos ainda têm de recorrer ao Código do Consumidor contra os abusos a que constantemente são submetidos pelos bancos? Embora invadam, sem nenhuma parcimônia, nossa caixa postal ou nosso correio eletrônico com faustosos anúncios dos novos "produtos" que colocam à venda, os banqueiros resolveram recorrer aos sábios do direito administrativo, com o fim de provar que, mesmo consumindo tais produtos, não somos consumidores. Não poderíamos, portanto, recorrer mais ao Código de Defesa do Consumidor e nem aos Procons para nos defendermos contra efeitos da propaganda enganosa ou dos prejuízos que nos viessem a ser causados por conta das incompreensíveis, e inacessíveis, contabilidades bancárias.

      A soberba não é ocasional. Desde 1994, os banqueiros se caracterizaram como a única parcela da população que não passou por nenhum solavanco conseqüente de crises econômicas. Não correram nenhum risco de mercado. Foram depurados, alguns, porque não faziam parte do setor hegemônico de poder sobre a Nova Ordem instituída desde então. Mas a nata se locupletou, e não pouco.

      E aí está o ovo da serpente que gerou o Golias financeiro que nos asfixia o desenvolvimento. Na raiz de tudo, o Proer — alvo de uma CPI que necessitou de cinco longos anos para sua instalação, e sobre a qual, em seu penoso processo atual, se estabeleceu um silêncio sepulcral. Como se ali, até inconstitucionalmente, não se tivesse operado a transferência de algo em torno de US$ 30 bilhões do Tesouro, "do seu, do meu, do nosso dinheirinho", para as mãos de alguns selecionados banqueiros.

      Um dos gestores da operação, Gustavo Franco — responsável pelo período de câmbio estratosférico e juros incontroláveis que se somou ao Proer para enriquecer ainda mais os especuladores institucionais — , chegou a admitir (competentemente, até para tentar se limpar no futuro da história que vai aclarar essa barbaridade) a irrecuperabilidade de algo em torno de US$ 15 bilhões desse total. Culpando a lerdeza da Justiça contra os "banqueiros ladrões", mas sem explicar por que sempre teve sua política inteiramente apoiada por eles — não só quando manobrava as amarras das burras do Tesouro, mas ainda hoje, com assessoria "brilhante" que presta aos donos do "ervanário" concentrado na mão de bem poucos.

      A soberba da citada iniciativa jurídica pode, no entanto, prestar um excepcional serviço ao interesse público. Pode, por exemplo, impedir que a CPI do Proer, entrando em sua fase final, agora em fevereiro/março, incorpore a tese que o governo tenta impor ao seu relator — "não teria havido prejuízo, mas sim custo social, com a medida provisória do Proer".

      A soberba, mais o sucesso judicial de um dos que foram varridos do mapa na operação de abertura do sistema financeiro brasileiro aos grandes "piranhas" internacionais — o ex-ministro e ex-principal caixa de campanha presidencial, Andrade Vieira, ex-controlador do Bamerindus, que denuncia os ex-presidentes e ex-diretores do BC pela transferência, sem ônus, de seu banco ao HSBC — pode permitir que a CPI seja um instrumento de auxílio fundamental ao Ministério Público Federal. Alguns de seus corajosos procuradores já enquadraram os ex-diretores do BC em improbidade administrativa, mas podem ter, através da repercussão política de um justo relatório sobre as mazelas do Proer, o instrumento que faça com que suas inúmeras e bem fundadas denúncias já encaminhadas sejam, enfim, desengavetadas e julgadas na Justiça de Brasília.

      O que a sociedade brasileira não pode aceitar é que os responsáveis pela sangria de recursos públicos que gerou todo o poder crescente e incontrolável desses hoje insaciáveis, e cada vez mais rapinosos banqueiros "do rei", saiam de área pública para se transformar em "analistas" e "assessores" de políticas que vêm exatamente agravando o estado de privilégios, ora existente. Que se consiga isso, pelo menos para que o efeito Orloff da Argentina não nos invada.

      (publicado em "O Globo" em 6/2/2002)

      Bitola estreita, embocadura torta.

      Milton Temer

      Os fatos políticos, mal janeiro dobra seus meados, mostram que a disputa presidencial - o vértice da porfia neste ano de eleição geral - continua a correr na bitola estreita e com embocadura torta. Os maiores espaços na grande mídia vão para os conflitos intra-elites. Tudo como se não houvesse vida ativa fora de tal mundo. Nesta fase dos testes de materiais, os candidatos da ordem se revezam na seguinte escolha: qual será o figurino "oposicionista" capaz de garantir, no voto, a continuidade por outras formas do domínio oligárquico.

      Dois episódios, típicos desta fase, explodiram diante dos holofotes do cenário farsesco. O lançamento da candidatura presidencial do pequeno Jungmann e a emergência do prefeito de Vitória, Luiz Paulo Vellozo Lucas, como tocador de bumbo da candidatura Serra. Além de ex-comunistas, os dois cultivam a mesma preocupação. Querem demarcar, segundo dizem no debate de idéias, as suas até então insuspeitadas diferenças com a direita. Essa descoberta tardia - a da existência de incompatibilidade ideológica entre os partidos da base de sustentação do governo FHC - foi objeto de chacota.

      Os autores da descoberta foram desqualificados de pronto até entre os seus mais próximos aliados. Pudera. Qualquer analista sério sabe que PSDB, PMDB e PFL estão fundidos no processo em curso. Votaram juntos todas as exigências do receituário neoliberal. Formaram e continuam a compor, no governo, um amalgama comum que pode até se esfarelar na disputa eleitoral, mas nunca pela via da demarcação de diferenças ideológicas.

      Há, no entanto, nestes dois episódios menores uma espécie de espoleta sismográfica que pode e precisa ser detonada. A eleição, especialmente quando se dá num patamar de esgotamento de modelo (olhem para a Argentina), precisa ser colocada na bitola larga do amplo debate de idéias. Isso requer lastro ideológico e nitidez entre os projetos em disputa. E a embocadura certa, aquela que mobiliza a cidadania na construção de uma alternativa real, é a que demarca com a direita. Tanto com a velha direita que busca se recompor no PFL, quanto com a "nova direita" que domina o PSDB e o PMDB.

      Essa tarefa não é fácil, nem pode ser conduzida por qualquer um. Só a oposição de verdade pode ocupar com eficácia este espaço. Aquela que, pela sua trajetória na história recente, acumulou na política, tem base social e lastro ideológico para polarizar na construção da alternativa nova. Se a esta oposição, no entanto, faltar coragem política para apostar nas suas próprias forças e demarcar com a direita, restarão os simulacros padrão Jungmann-Vellozo. Neste caso, para desgraça dos brasileiros, o risco é o do continuísmo. A disputa eleitoral continuará no interior da camisa de força costurada pelas elites, na bitola estreita e com embocadura torta.

      17/1/2002

      "EFEITO ORLOFF"

      Milton Temer

      O Tietê não é o "Plata", samba não é tango, Borges não é Guimarães Rosa, nem Romário é Maradona. No entanto, apesar das indiscutíveis diferenças, as barbas senhoriais estão todas de molho e a razão é simples. Guardada a enorme diversidade de formação e cultura, Brasil e Argentina são prisioneiros de uma armadilha comum: a encalacrada do receituário neoliberal.

      Até porque somos diferentes, o modelo foi aplicado com ritmos, contrapontos e dosagens distintas lá e aqui. Mas é, sem tirar nem por, essencialmente o mesmo. E com as mesmas implicações: destruição de direitos, esgarçamento do tecido social, corrosão das instituições, desmoralização da política. E, no limite, o caos social e a conflagração.

      Não por acaso a grande mídia, na medida em que se agravava a crise, cuidou de anunciar em grandes títulos o nosso "descolamento" da Argentina. Até quem não se sabia tão colado, tomou conhecimento do feliz desenlace. Medidas foram tomadas para evitar o contágio financeiro. Verniz para quem vive no mundo virtual da especulação, pois as implicações permanentes para a economia real ninguém pode prever ainda. A crise é grave e está apenas no seu começo.

      A preocupação central, no entanto, é outra. Sobre ela se manifestou - especial para o Financial Times, transcrito na FSP, 8/1 - o economista chefe da Zurich Financial Services, David Hale. Segundo este prócer do mercado, a crise argentina pode produzir um "contágio intelectual, uma reação contra a política pró-mercado em todos os países em desenvolvimento". E, lamenta: "Agora, o movimento contra a globalização e os esquerdistas tradicionais devem transformar a Argentina em exemplo de como as reformas pró-mercado podem se autodestruir".

      Procedem as preocupações do prócer. Seu lamento final deve ser tomado até como uma recomendação. É isso ai: uma crise deste tamanho sempre se traduz como lições da história. Ficou claro que a supremacia absoluta do mercado leva ao desastre social. Ficou claro que terceira via é acostamento, onde os problemas se agravam para explodir mais tarde. Ficou claro que a simbiose entre o poder político e o poder financeiro é um fator incontrolável de corrupção e deslegitimarão da política. Ficou claro que a sacralidade dos contratos particulares não pode se contrapor à sacralidade do contrato social. Ficou claro que a paciência do povo tem limites. Tudo isso adquiriu, na crise, uma clareza argentina. Quanto ao rumo dos acontecimentos, resta uma pálida esperança de que o povo, no espaço livre das ruas, possa construir uma saída para a encalacrada.

      O caminho do caos, que a Argentina começa a percorrer, ainda pode ser evitado no Brasil. Basta que o processo da próxima eleição geral se abra aos anseios de ruptura, pela política, com o totalitarismo financeiro. Agora, se a disputa eleitoral virar batalha de confete - capitaneada por marqueteiros, polarizada entre "mais do mesmo" e "menos do mesmo" - estaremos perdidos. Virá, como aconteceu no último pleito argentino, um amazonas de voto bronca e estaremos em marcha batida para o "efeito Orloff".

      (10/1/2002)

    • Feliz 2002

      Milton Temer

      Em 2002 vai haver eleição geral e a oposição vai ganhar. É o que se diz. O modelo que avassalou a política na era Collor-FHC está esgotado. A corrosão da crise esfacelou o monolito neoliberal. Por outro lado, o povo quer mudar e, no ensaio geral das eleições de 2000, deixou isto claro para todos e com larga antecedência. É ai que mora o perigo. E também a causa dos processos que estão se desenrolando diante de nossos olhos.

      Essa idéia -- a da vitória anunciada da oposição – está presente nas pesquisas de opinião e nas enquetes qualitativas. Os marqueteiros, os estrategistas eleitorais e até os donos do poder operam nesta perspectiva. É quase como se lidassem com um imperativo categórico que, ainda carente de conteúdo concreto, torna-se uma arma na mão de todos, inclusive das elites dominantes. Abram o olho.

      Se a oposição vai ganhar, todos são de oposição. O cidadão que se precate, pois vai aparecer um naipe variado de "oposicionistas" disputando o seu voto. Vão tentar, mais uma vez, embaralhar as cartas para passar gato por lebre. Os mais atentos já perceberam que, no vértice da disputa eleitoral, os postulantes presidenciais são todos críticos do modelo falido. Até o candidato urdido nos laboratórios do Planalto não foge à regra. Mas esta é apenas uma das facetas do problema.

      A elite brasileira, revivendo uma tradição que lhe é própria, já começa a recorrer ao seu velho arsenal de truques. Ela opera em amplo espectro e aspira se antecipar aos acontecimentos. Ancorada no dinheiro sem limite, que é poder social materializado, e nos influentes aparelhos de dominação ideológico que hegemoniza, busca definir na véspera o resultado da eleição. Para tanto, costura uma camisa de força onde pretende aprisionar a agenda de temas que ocuparão o centro do debate eleitoral e, prestem atenção, a armação do cenário da disputa.

      A fase de teste dos materiais já começou. O mercado de peças de reposição, onde pululam neo-oposicionistas palatáveis e gattopardos, está fervilhando. As engrenagens que fabricam bonecos, alguns de saias, que são guindados aos píncaros das pesquisas estão acionadas. O programa Pirandello (autoria do Mendonça de Barros - aquele da privatização da telefonia e cujos métodos e linguajar se tornaram conhecidos pelos grampos do BNDES) está redigido. É o programa pronto, prato feito, a procura de um candidato. Seria uma espécie de vetor resultante obrigatório, nem mesmo a oposição de verdade estaria autorizada a escapar dele.

      Conjurar esse risco – o grande risco do continuísmo – é a tarefa que se coloca para os brasileiros em 2002. Se a sociedade brasileira quer inaugurar uma outra era, sair da encalacrada da crise e renovar seu estoque de esperanças, só há uma saída. Canalizar a energia cívica da cidadania para, no contraponto radical ao modelo falido, construir a alternativa democrático-popular. Os votos que vão derrotar o modelo neoliberal nas eleições do ano que vem são os votos de feliz 2002.

      (18/12/2002)

    •  

    •  

      Atacar as desigualdades

      Milton Temer

      É uma pena, mas não dá para mudar de assunto. O presidente FHC não passa semana sem produzir um destampatório novo. Desta vez foi no seminário sobre "idéias fora de lugar", no Rio de Janeiro. O presidente que nos infelicita e debocha dos brasileiros afirmou, como se uma coisa não tivesse a ver com a outra, que reduzir a pobreza é mais importante do que reduzir a concentração de renda.

      Faz sentido. Uma declaração perfeita. Para a ideologia dominante a desigualdade é um valor positivo. Um dínamo que aciona a reprodução ampliada dos lucros e a vitalidade da economia. Aliás, o velho Lampedusa, aquele da máxima tão citada - "é preciso mudar para que tudo continue o mesmo"- afirma no mesmo livro que o que a elite não tolera mesmo é a diminuição das desigualdades. Pode vir "democracia" ou ditadura, monarquia ou república, regime unitário ou separatista, tanto faz, mantida a desigualdade estará tudo bem para as elites. O que faz o "nobre", segundo ele, são as diferenças que, portanto, não podem ser tocadas.

      Daí decorre a preferência do presidente FHC. O antigo príncipe dos sociólogos falou, mais uma vez, como o sociólogo dos príncipes. No tempo da ditadura – lembram-se? – dizia-se que primeiro era preciso fazer crescer o bolo para depois distribuir as fatias. Para o receituário neoliberal, segundo o qual o mercado resolve tudo, basta fortalecer os pontos fortes da economia que os problemas sociais se resolverão por decorrência natural. A linha da nova direita autoritária, os republicanos de Bush, é o conservadorismo com compaixão, que enche as burras do complexo industrial-militar e distribui migalhas na forma de políticas compensatórias. São variações sobre a mesma doutrina, fontes de inspiração do nosso malfadado presidente.

      Os muito ricos, os banqueiros e oligarcas, que financiam as campanhas eleitorais de FHC e de sua base de sustentação, certamente vão bater palmas. São, como o presidente, inimigos do Brasil e dos brasileiros. Lucram com a desigualdade e se sustentam na sua reprodução. Enquanto não se livrar desta gente, o Brasil continuará na encalacrada da crise.

      O país é rico, dimensões continentais, reservas naturais imensas, povo trabalhador, criativo e pleno de potencialidades. Mas se consome na crise porque, ao mesmo tempo, é extremamente injusto, violento, atrasado. Injusto, porque desigual. Violento, porque desigual. Atrasado, porque desigual. A desigualdade está na raiz de todos os nossos grandes problemas. Um poder público digno deste nome, numa sociedade como a nossa, só adquire sentido na luta permanente contra a desigualdade. Mas o presidente e as elites que o sustentam operam na lógica da supremacia absoluta do poder privado. Não sabem nem querem saber desta verdade elementar: não se combate a pobreza sem atacar as desigualdades.

      (12/12/2001)

    •  

    •  

    • "Ride palhaço"

      Milton Temer

      Apareceu nos jornais da semana mais uma pérola do presidente FHC. Ele afirmou, com a cara mais limpa do mundo, que: "quando dizem que o governo é neoliberal, rio". Sendo assim, está tudo explicado. O rictus risonho que o presidente debochado ostenta nas fotografias está explicado. Assim como explicadas estão as piadinhas infames, como aquelas que provocaram a justa indignação nos aposentados e nos professores. Trata-se de uma reação mecânica, automatizada, ao juízo inevitável que qualquer um que analise as iniciativas do governo é obrigado a fazer.

      Está tudo explicado. A gargalhada compulsória do presidente é a imagem reflexa da natureza do seu governo. O ativista político e o cidadão comum, o estudioso sério e o que apenas lê os jornais, o militar e o civil, o cardeal e o irmão remido, o atento e o distraído, qualquer um que analise as políticas deste governo, não tem jeito, vai emitir um juízo que provocará o riso presidencial. E, infelizmente, para este mal não há remédio. O governo é neoliberal até a medula. Logo, o presidente está condenado a conservar o riso de hiena afivelado na face até o final dos tempos.

      Se há ainda alguém que duvida, basta dar uma olhada na investida, que está em curso no Congresso Nacional, contra a legislação trabalhista. O Executivo, com o empenho pessoal do presidente, está jogando pesado. Verbas do orçamento para alimentar o intestino grosso do baixo clero, uma pressão que produziu fluídos tão fortes que paralisou o painel eletrônico da Câmara. O que o ministro Dornelles, o Vargas degenerado, chama de flexibilização, na realidade é mais do que precarização de garantias. É destruição de direitos sociais duramente conquistados.

      E tem mais. O conjunto das mudanças propostas – que altera direitos elementares como a remuneração do trabalho noturno, prazo de registro na carteira, hora-extra, férias, 13º salário, duração da jornada - resulta numa investida violenta do capital contra o mundo do trabalho. Nenhuma destas mudanças encontraria abrigo no ideário social-democrata que, afinal, é o nome de fantasia do partido do presidente. É uma iniciativa que decorre, em linha direta, escrita e escarrada, do receituário neoliberal. Essa é a dura realidade que ninguém, com um mínimo de honestidade intelectual, será capaz de contestar.

      Portanto, não há como evitar o riso mecânico e automatizado do presidente. Seu governo é neoliberal. No cerne, nos métodos, nas linhas essenciais e programas mais importantes, em todos e em cada um dos seus movimentos. O Proer, as privatizações, a desregulamentação, a política de juros, a abertura descontrolada da economia, tudo neoliberal. Além de lutar contra este modelo perverso, o cidadão precisa recorrer ao estoque brasileiro de paciência e ironia. Repetir a cada minuto que o governo é neoliberal. E, como na sátira operística do velho Lamartine Babo, acrescentar: "ride, palhaço..."

      (5/12/2001)

    •  

    •  

    • O sanatório geral vai passar

      (28/11/2001)

      O presidente FHC fez mais uma das suas. Ele, que já chamara os aposentados de vagabundos, agora resolveu exibir seu deboche contra a categoria dos professores. Disse, com todas as letras, que "… se a pessoa não consegue produzir, coitada, vai ser professor". Uma barbaridade. Pior, assacada contra uma coletividade inteira de trabalhadores de importância social decisiva em qualquer país civilizado.

      Falou bobagem e, agora, vai ouvir poucas e boas. Bem feito. Menosprezar professor é atentar contra a civilização. Mas FHC não se emenda. Como acontece com todo arrivista, vendeu sua alma rala aos interesses dominantes e, por conta disto, está condenado a produzir barbaridades até o minuto final do seu melancólico governo. Aliás, este governo e o seu modelo são um atentado permanente contra o processo civilizatório. Se alguém duvida, basta dar uma olhada nos jornais da semana.

      O pacote contra a greve dos servidores públicos é um exemplo. Para se contrapor a um movimento legítimo, e não por acaso vitorioso, o governo descamba para o autoritarismo. Afronta decisões judiciais, agride a ordem legal, atenta contra o estado de direito democrático. Não é apenas a oposição que assim qualifica o comportamento do governo, são os titulares mais qualificados do Poder Judiciário.

      O mesmo caso se repete no atentado, em curso no Congresso Nacional, contra a legislação trabalhista. O próprio presidente está empenhado em quebrar a resistência, liberando as famosas emendas no orçamento que alimentam a escumalha parlamentar. Querem destruir direitos sociais que, mesmo precários e que precisavam ser ampliados, são garantias mínimas de práticas civilizadas nas relações capital e trabalho.

      São os imperativos categóricos do modelo dominante. Mantido o modelo, não há como melhorar a qualidade do serviço público. A dívida dos ruralistas se perdoa, os lucros exorbitantes dos banqueiros estão assegurados, mas não há recursos para garantir a educação pública, gratuita e de qualidade. Mantido o modelo, o dinamismo do capital não pode conviver com as garantias ainda que precárias da legislação trabalhista. Os juros altos, que inviabilizam a atividade produtiva, vão continuar. A crise energética e o apagão, gargalos que sufocam a retomada do desenvolvimento, também. Tudo fica inalterado, mantido o modelo.

      Mas, 2002 vem aí. Teremos eleições gerais. As diferentes vertentes da crise vão desembocar na busca de saída. Ora, se mantido o modelo nada funciona e a crise se agrava, a saída será desmontar o modelo e derrotar o arrivista debochado que o capitanea. A cidadania, nas ruas, vai reativar o estoque de esperanças: o sanatório geral vai passar.

      (28/11/2001)


      O ovo da serpente

      (19/11/2001)

      Brecht tinha toda a razão.

      É difícil definir quem traz mais prejuízo à organização de uma sociedade justa e democrática - se aquele que assalta um banco, ou se aquele que funda um banco.

      Não fosse pelos escandalosamente crescentes lucros do sistema financeiro privado -com privilégio para aqueles bancos que, longe de serem instrumentos de estímulo à produção, operam de fato na especulação pura sobre os títulos de dívida pública do governo -; não fosse pelos imensos espaços de sonegação de tributos, ou de lavagem de dinheiro ilegal, vale lembrar o dramaturgo por aquilo que a CPI do Proer já vem demonstrando na Câmara dos Deputados, sob o quase silêncio da grande mídia.

      E tal silêncio não vem por acaso. A CPI se sucede na constatação de que, para além do aspecto predatório que a própria atividade financeira estampa nas suas operações rotineiras, há ainda o imenso poder político que banqueiros e suas instituições exercem, por cima dos poderes da República.

      O Banco Central entra em linha de tiro. Nas audiências públicas sobre as intervenções no Econômico, no Nacional e no Bamerindus, os dados se somam para comprovar que o Proer dedicou dezenas de bilhões de dólares do Tesouro para o fortalecimento de instituições privadas nacionais e internacionais. Direta ou indiretamente, Unibanco e HSBC -sem entrar nos detalhes da obscura operação com o Excel, um tamborete de operações ilícitas, cujo êxito na obtenção preliminar do Econômico, ninguém até hoje conseguiu explicar de forma convincente - foram beneficiados por decisões inexplicáveis, nos termos da transparência e da probidade.

      "Custos" necessários para impedir uma crise sistêmica, dizem os que defendem a operação. Prejuízos reais e maracutaias de alto coturno, indicam as contradições nos diversos depoimentos. O que já resultou na reconvocação de ex-tecnocratas do BC, para saber, ao fim e ao cabo, quem mentiu sob juramento.

      Não se deixem abafar, portanto, nos próximos capítulos dessa novela dantesca - gestação e prática do Proer -, principalmente os que serão protagonizados por Pedro Malan e Gustavo Loyola.

      Está aí o ovo da serpente de todas as bandalheiras nas privatizações das teles e do sistema energético. Está aí o ovo da serpente dos recursos escusos utilizados na compra de votos de parlamentares para a aprovação da emenda da reeleição. E pode estar aí o caminho das pedras de certas contas secretas em paraísos fiscais, que certamente têm muito a ver com o luxo e a riqueza da campanha presidencial vitoriosa de 98.

      (19/11/2001)


       


      Banqueiros, sanguessugas da nação

      (19/11/2001)

      Há uma classe de gente que está feliz da vida com o governo FHC. São os banqueiros. Em meio à crise que azucrina a vida da maioria dos brasileiros, eles estão ganhando rios de dinheiro. Esta semana os jornais publicaram o levantamento feito pela ABM consultoria, de São Paulo, trazendo o lucro acumulado até setembro por algumas das maiores instituições financeiras privadas. Uma grandeza.

      O destaque, mais uma vez, ficou por conta do banco Itaú. Seu lucro líquido declarado alcançou a espantosa cifra de 2,156 bilhões de reais até setembro, 70,8% a mais do que a enormidade que já ganhara no mesmo período do ano anterior. Isso sem falar que, em 1999, este mesmo banco tinha anunciado, orgulhoso, que obtivera o até então maior lucro da sua história. Uma seqüência espantosa de recordes que só o modelo FHC pode proporcionar.

      As fontes dessa farra acintosa são as de sempre. Todas em linha direta com a política econômica do governo. Ganham com a política de juros altos, que inviabiliza a produção. Ganham com a política cambial e as carteiras de investimento cotadas em dólar. Ganham muito com a dívida pública. Cresceu, no período, em 40% a receita com a compra de títulos do governo corrigidos pela variação dos juros e do dólar. Ganham com a cobrança de tarifas, um absurdo onde só falta cobrar dos correntistas o ar que se respira nas agências. Ganham porque não pagam impostos. A Receita mete a mão pesada no bolso dos assalariados, mas alivia os bancos que podem abater no Imposto de Renda os créditos fiscais proveniente de ágios na compra de outras instituições. Uma beleza.

      Os banqueiros ganham sempre. Ganham na alta e na baixa. Operam no limpo, no sujo e no mal lavado. Mandam e desmandam. Estão no vértice do poder econômico perverso que nos domina e, a partir deste ponto privilegiado, controlam tudo. Agora mesmo esta rolando no Congresso Nacional a CPI do PROER. Ela tem sido palco de múltiplas revelações, todas elas do maior interesse público. Em condições normais, ela estaria no foco das atenções da grande mídia nacional. No entanto, quase nada sai nos jornais. E a razão é simples. No sistema que nos oprime, infelizmente, os banqueiros estão fora do alcance e acima da lei.

      Não por acaso, os banqueiros são os maiores financiadores de campanha eleitoral. Basta ver a prestação de contas das duas campanhas de FHC e dos parlamentares que sustentam a maioria governista no parlamento. E mais, além das abertas, eles freqüentam as planilhas secretas, o caixa um, dois e três dos tesoureiros do situacionismo. Um círculo vicioso infernal que precisa ser quebrado. No Brasil de hoje, por conta desta malha de cumplicidades, o poder emana dos banqueiros e em seu nome está sendo exercido. Não é o que está escrito na abertura da Constituição, mas é como funciona no real. Assim como na ditadura militar tudo passava pelos quartéis, no governo FHC tudo passa pelos banqueiros, sanguessugas da nação.


    • Lobismo e pressão social

      (13/11/2001)

      Sempre que aparece escândalo gordo (e o que não tem faltado ultimamente é escândalo gordo) não dá outra: o assunto volta ao debate nos bastidores do Congresso e nos editoriais da grande mídia. O caso do lobista APS, Alexandre Paes dos Santos, que está incomodando um postulante presidencial tucano de alto coturno, trouxe o assunto de volta. Querem legalizar o lobismo e, ao defender sua regulamentação, se esmeram em embaralhar as cartas. Para legitimar esquemas privados de assalto ao patrimônio público, os setores dominantes procuram estabelecer similitude essencial entre lobismo e pressão social.

      Mas alho não é bugalho. O Congresso Nacional, como representação política do corpo social, deve ser uma instituição aberta e permeável aos movimentos que expressam os conflitos legítimos que existem na sociedade. As reivindicações, as lutas, as grandes bandeiras que organizam e mobilizam a cidadania são pressões que chegam ao parlamento legitimadas pela sociedade. Não há, é bom deixar claro, qualquer parentesco entre a pressão legítima dos movimentos e a ação dos lobistas. Pelo contrário, há uma incompatibilidade essencial entre essas duas práticas.

      Uma percorre o caminho aberto do debate público. A outra rasteja no "toma-lá-dá-cá" das ante-salas do poder. Uma vivifica a política como prática civilizada, forja e projeta lideranças legítimas. A outra corrompe a política, tornando-a um jogo de cena onde imperam os mais espertos. Uma se desdobra na luz do dia, organiza a sociedade e fortalece suas instituições democráticas. A outra opera no lusco-fusco das transações tenebrosas, entroniza o interesse puro e fragiliza as instituições. Uma é a própria transparência. A outra é o reino da opacidade.

      Ademais, na prática democrática civilizada, há uma questão sobre a qual não pode haver dúvidas. O bem público é público porque não pode ser apropriado privadamente e é público porque deve ser transparente o debate que define a sua apropriação social. O lobismo violenta estas duas dimensões fundamentais para o exercício da democracia. Como tal, trata-se de uma prática condenada por princípio. Exercitado nas ante-salas do parlamento, do executivo ou do judiciário, o lobismo é e será o que sempre foi. Mais do que uma contravenção, ele é um crime contra a cidadania e não há regulamentação capaz de libertá-lo desta marca de nascença.

      Quem faz a boa política, pautado pelos anseios e valores da cidadania, não pode conviver com o lobismo. E tem mais. Se ainda cabe alguma iniciativa parlamentar sobre a questão, ela deve ser no sentido de criminalizar – ainda mais fortemente do que ela já é na atual Constituição, a atividade lobista. Não tem perdão. Não há como legitimar o que, por natureza, é ilegítimo. Devemos, portanto, rechaçar de pronto qualquer tentativa de confundir lobismo e pressão social.

      (13/11/2001



      Evitar o caminho argentino

      (24/10/2001)

      O resultado da eleição na Argentina produziu, nos jornais brasileiros, uma curiosa convergência de análises. Em editoriais e artigos, e até na cobertura propriamente dita, o foco foi sempre o mesmo. "Bronca democrática", "ira do voto", "rugido das urnas", "política em xeque" foram algumas das expressões utilizadas para caracterizar a marca principal do evento: o peso inusitado do voto de protesto. E mais – também isso foi comum nas análises -- um protesto que não se constitui, de imediato, como alternativa. O país continua no beco sem saída e em marcha batida para o caos.

      O governo do Fernando de lá sofreu uma derrota acachapante. Apesar disso, tudo indica, continuará o seu curso tenebroso. Domingo Cavallo, rejeitado pela segunda vez e de maneira rotunda pelo eleitorado, seguirá ministro plenipotenciário. A "oposição" peronista cresceu no parlamento e, certamente, será chamada para sustentar a "governabilidade". Ou seja, estão garantidos todos os elementos para a reprodução ampliada da crise. A crise prospera, o ceticismo se generaliza e a democracia, parca, entra no vestíbulo funéreo. Tal círculo vicioso se tornou possível porque, diz o editorial da FSP de 16/10, "para os argentinos, a política parece ter se tornado terreno em que ninguém é diferente de ninguém".

      Alguém se lembra do famoso "efeito Orloff"? Usado nas comparações Brasil-Argentina, ele deve nos deixar com as barbas de molho. Afinal, é comum o caldo de cultura que nos embebeda. Basta ver, em flashes sumários, os jornais do mesmo dia 16/10. O presidente atual do PMDB, cujo nome nem vale a pena lembrar, diz que seu partido elabora um programa para o Brasil, inspirado no "conceito central de despolitização de posições (...) refratário às radicalizações dos que detratam as leis do mercado". Mangabeira Unger, o filósofo de Boston, afirma que o candidato presidencial da situação e o do PT convergirão para um mesmo projeto: política industrial para crescer e exportar, e redes de proteção, do tipo bolsa-escola e renda mínima, para moderar extremos de exclusão. Ou seja, o cenário ideal para o "sistema prussiano" da mudança governada de cima: os candidatos governistas passam por oposição e a oposição, madura e responsável, ostenta a moderação conciliatória.

      Realismo político? Nada disso. Eleição em tempo de crise é ocasião para nitidez de projetos e disputa de hegemonia na sociedade. Vale, neste quadro, a lição do velho amigo Carlos Nelson Coutinho: "Se a esquerda quer hoje ser realista, tem de ser radical." Para ser fiel à sua base social, garantir a democracia como livre manifestação dos conflitos, salvar a política como território de construção real de alternativas e conjurar o perigo da argentinização da crise brasileira. Como alerta Clóvis Rossi (FSP, 16/10), atento ao rugido das urnas argentinas: "Fingir que tudo muda para que tudo continue igual não engana mais ninguém. É uma aula ainda em tempo de ser aproveitada pelos candidatos a 2002 no Brasil." É preciso evitar o caminho argentino.

      (24-10-2001)


      A armadilha que precisa ser desarmada

      O tucano Tasso, postulante presidencial preferido pela família Covas, foi lançado em São Paulo. Afirmou, no seu discurso, que "o que se convencionou chamar de Consenso de Washington morreu! Ele não foi capaz de reduzir a pobreza e as desigualdades; ao contrário, as evidências apontam que elas foram arraigadas". Antes, no tempo da euforia neoliberal, o tucanato negava não apenas a filiação como até a própria existência de tal "consenso". Era "invenção do professor José Luiz Fiori", "paranóia conspiratória da esquerda empedernida", coisas do gênero. Nada como a proximidade de uma eleição para aguçar a "sensibilidade" de certa gente.

      No dia seguinte, foi a vez do postulante Serra. Deixou de lado o antraz para correr atrás do prejuízo: meteu o pau na abertura irresponsável da economia. Virou moda falar mal da política econômica do governo FHC. Até parece que todos os postulantes presidenciais em 2002 serão de oposição. A razão é simples. O povo está na oposição, quer mudanças. O Ibope, os marqueteiros todos, as pesquisas qualitativas diárias, tudo indica a vitória da oposição nas próximas eleições presidenciais. Qual oposição? É o que resta saber.

      Em tal cenário, o comportamento das classes dominantes brasileiras será o de sempre. Recorrente. Clássico. Definir os rumos da mudança antes que o povo a faça. Logo, é preciso embaralhar as cartas. Envolver todos na geléia geral. Garantir que o vetor resultante não coloque em risco a reprodução dos privilégios seculares. É por isso que os candidatos governistas falam tão mal do governo. Faz parte da operação. Por outro lado, na outra parte da mesma operação, os aparelhos ideológicos dominantes interpelam os não-governistas, a oposição democrática, a esquerda. O bilhete de entrada no reduzido círculo do poder só se concede ao postulante "maduro", "responsável", que não coloque em risco uma determinada "ordem" social.

      Este é o modelo em que querem enquadrar o PT. É o partido que tem lastro histórico, base social e massa crítica para polarizar as eleições na linha da mobilização popular e na postura afirmativa de outros valores. Os donos do poder, no entanto, querem um PT maduro. E que, desta vez, diga não com sinal trocado. Tal como está no artigo de Josias de Souza (FSP,21/10): "Não implantaremos o socialismo, não romperemos com o FMI, não decretaremos a moratória, não desrespeitaremos contratos, não atearemos fogo ao campo, não jantaremos criancinhas".

      O que eles querem na verdade é evitar, no debate eleitoral, a disputa de projetos, a livre manifestação dos conflitos sociais e a construção de uma nova hegemonia. Se, na armação do cenário, as classes dominantes forem vitoriosas, o conteúdo da campanha ficará por conta do discurso "competente" de economistas e tecnocratas. Exemplo? O debate travado entre a colunista conservadora Miriam Leitão e os técnicos progressistas da ONG do Lula sobre o detalhamento de programas compensatórios. Neste caso, com qualquer resultado eleitoral, ganha o continuísmo e a nossa sorte será a da Argentina. Essa é a armadilha que precisa ser desarmada.

      (24/10/2001)


      Cara-de-pau

      (31/10/2001)

      O presidente FHC fez discurso de esquerda na Assembléia Nacional da França. Uma belezura. Nos jornais, manchetes gigantescas e toneladas de tinta. Novidade? Virada de página na política do governo? Nada disso. Quem conhece a peça já está cansado de saber. Toda vez que viaja para fora, o sociólogo-presidente executa a mesma partitura. Só se engana quem quer ou, mais grave, quem quer enganar. Tudo não passa, como diz o ditado, de parola flácida para bovino dormitar.

      Essa figura do duplo, que aparece nas viagens presidenciais, está manjada. Ainda no começo do primeiro reinado, o humor ferino do Veríssimo acertou na mosca. Segundo ele, há dois FHCs. Um que opera a política das elites conservadoras e outro, mantido em cativeiro, que só liberam para fazer discursos no exterior. Alguém se lembra do discurso no Colégio do México? Um espanto. Incluía até um lamento melancólico pela sorte das utopias revolucionárias. Otávio Frias, na ocasião, sugeriu os conceitos de "otimismo derrotista" e "pessimismo feliz" para explicar o abismo que separa o discurso do sociólogo da pratica do presidente. Segundo ele, só o paradoxo seria capaz de enquadrar as metamorfoses do presidente ambulante. Um caso sério, digno de interdição.

      O jornalista Clóvis Rossi, que cobre a caravana presidencial na viagem de agora, disparou uma pergunta irônica: "Não seria o caso de FHC governar o Brasil do exterior?" E fez isso antes mesmo do discurso "para francês ver". Sua ironia é a de quem sabe que a "duplicidade" do presidente é sempre repartida de maneira estudada e conveniente. O que o sociólogo fala o presidente não faz. E o que este faz, aquele não fala. O verbo voa, papel aceita tudo e, na prática, o presidente continuará onde sempre esteve. Diplomacia da vassalagem, Itamaraty convocando a OEA com base em tratados da guerra fria, escritórios da CIA operando no contrapelo da soberania nacional. FHC é como o padre Gatica: "predica o que não pratica e pratica o que não predica".

      Como em toda boa festa, no entanto, uma gafe ajudou a colocar as coisas no seu devido lugar. O presidente da Assembléia Nacional francesa, o socialista Raymond Forni, embalado pela atmosfera de esquerda, citou o Fórum de Porto Alegre como o local de nascimento de uma nova consciência política. Ficou claro, para quem sabe ver, onde está o pólo de condensação de uma nova ordem mundial solidária. Bem feito. Foi uma gafe reveladora, que fez cair, em tempo real, a máscara do presidente FHC, esse tremendo cara-de-pau.

      (31 de outubro de 2001.


      Contra a guerra, pela paz

      (10/10/2001)

      Parece um século, mas poucos dias separaram o encerramento da conferência de Durban, na África do Sul, da explosão do terror em Nova York. Uma difícil e delicada construção, a babel de direitos na luta contra a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância, também sofreu o impacto das bombas do Word Trade Center e, principalmente, do que se lhe seguiu. Os países mais ricos e poderosos do mundo, que já tinham operado em conjunto no boicote à conferência de Durban, agora se valem do impacto causado pelo irracionalismo terrorista para desencadear a guerra. O resultado, inevitável, só pode ser, exatamente, o incremento do racismo, da xenofobia e da intolerância.

      A conjuntura que se abre com a reação desatinada ao desatino é a da vitória do terror. Quando os petardos do bombardeio "cirúrgico" matam civis na sede da ONU em Cabul, mais do que de um erro estamos diante de um símbolo. A ONU já fora descartada antes. Agora vale a linguagem cuspida pelas bocas de fogo da máquina de guerra. Querem avassalar, não debater. Querem a ordem unida, não o contraditório ou a livre manifestação dos interesses e valores. A restrição dos direitos, a suspensão de garantias, as perseguições e detenções arbitrárias, enfim, uma agenda terrível que anuncia o estabelecimento de uma ditadura militar mundial.

      A vitória do terror é também uma vitória da velha direita. Essa tendência já estava definida quando Bush, apoiado pelo famoso complexo industrial-militar, ganhou as eleições no tapetão da Flórida. As vitórias eleitorais da direita em Israel e de Berlusconi na Itália apontavam na mesma direção. A crise econômica e a falência histórica do receituário neoliberal demandavam um deslocamento de eixo. Ainda mais porque a iniciativa política, no plano mundial, se deslocava perigosamente para o plano das forças contrárias à globalização liberal e aos interesses dominantes. Neste quadro, os interesses dominantes e a velha direita buscam sempre a saída clássica da guerra. Vão tentar substituir, para reativar a economia e botar ordem na casa, o horror econômico do neoliberalismo pelo horror absoluto e total da guerra.

      É preciso, no entanto, que essa vitória do terror e da guerra seja temporária e curta. O terrorismo -- seja ele religioso ou laico, de indivíduos, grupos ou estados -- opera sob o signo da destruição. E mais ainda a guerra, que afinal não passa de uma apoteose do terror. A guerra e o terrorismo, essencialmente destrutivos, serão rechaçados pela consciência digna da cidadania mundial. Não há nada que possa legitimá-los. O que está em jogo – o processo civilizatório e a própria sobrevivência humana -- é importante demais. Mesmo quando os governos se atrelam às máquinas de guerra, os povos querem a paz. Assim tem sido, assim será. É preciso barrar o desatino e ocupar as ruas do mundo na luta contra a guerra, pela paz.

      (10/10/2001)

      Duas Faces da Mesma Moeda

      (redigido em 07 de agosto de 2001)

      A cena espantosa foi estampada em todos os jornais e telejornais. Através de imagens chocantes e textos comovidos, o cidadão tomou conhecimento do saque acontecido no Ceasa de Irajá, no Rio de Janeiro. Estava lá uma multidão de desvalidos -- adultos e principalmente mulheres, crianças e idosos -- cobertos de fuligem e lama, entre os ferros retorcidos. Buscavam restos de comida, sobras de um incêndio de dez dias antes, alimentos que a vigilância sanitária condenara como estragados. Todos estavam ali movidos pelo mesmo motivo: a fome. Foi o saque do desespero, um acontecimento-sentinela, uma espécie de balanço da tragédia social e um aviso do que está por vir.

      Os mesmos jornais exibiam um outro balanço, aparentemente a milhares de anos luz da cena anterior. O lucro líquido do Banco Itaú, no primeiro semestre deste ano, alcançou a espantosa soma de R$ 1,457 bilhão. O do Bradesco chegou a R$ 1,042 bilhão. Nos dois casos, foram batidos recordes históricos. Nunca essas duas instituições financeiras -- os dois maiores bancos privados brasileiros -- ganharam tanto dinheiro em tão pouco tempo. Ganharam com a alta dos juros, com a disparada do dólar, com as tarifas cada vez mais altas que cobram dos seus clientes. Estão ganhando cada vez mais e, nos últimos semestres, bateram recordes sucessivos. Felizes da vida, apóiam o governo e cuidam de garantir a continuidade do modelo que lhes garante esta "era de prosperidade". É o saque dos banqueiros, também ele um acontecimento-sentinela.

      Há um nexo que articula estas duas realidades e não é difícil localizá-lo. Vejamos, por exemplo, uma outra notícia que está nos mesmos jornais. Ela fala do orgulho do governo FHC ao anunciar o superávit primário do primeiro semestre. O governo também deu lucro no primeiro semestre. Gastou menos do que arrecadou. Uma quantia bestial: R$ 30,4 bilhões. Um sucesso total, afinal o Fundo Monetário Internacional só exigia R$ 21,4 bilhões, mas os nossos governantes, discípulos diletos, quiseram mostrar serviço. Como conseguiram tal façanha? Simples, cortando gastos, investimentos, verbas para serviços públicos, seguridade social, arrochando salários. Com que finalidade? Ora, até as pedras da rua sabem: superávit primário no Brasil de FHC é dinheiro separado para pagar em dia os juros da dívida, garantir o lucro dos especuladores, entregar aos banqueiros.

      O resultado é o que ai está. Crise, apagão, desemprego, insegurança social, miséria, violência, desigualdade crescente, saques. Um modelo que produz, ao mesmo tempo, o desespero do cidadão e a alegria dos banqueiros. Como diz o enredo do samba, do lado de lá, luxo e riqueza; do lado de cá, lixo e pobreza: são as duas faces da mesma moeda.

      [volta]


      Sob o Signo da Morte

      (redigido em julho de 2001)

      Um jovem morreu em Gênova. Os jornais estamparam a seqüência brutal de fotos. O tiro a queima roupa, o corpo estendido no chão e em seguida esmagado, em ato deliberado, pelas rodas da viatura dos carabineiros do Berlusconi. Quem viu - e o mundo inteiro viu - não se esquecerá jamais. São imagens fortes que, ao lado de outras tristemente famosas, vão entrar para a iconografia da história mundial da infâmia e da covardia.

      Mas a morte, como dizia o poeta andaluz Rafael Alberti, não acaba nada. Em seu misterioso sacrifício, tal qual o crucificado do Gólgota, o morto se transforma em símbolo da luta pela vida. Em Genova caiu um jovem e, ato contínuo, milhares de outros jovens se levantaram por toda a parte. Roma, Milão, Bolonha, Florença, Turim, Palermo, Undine, Trieste, Nápoles, Madrid, Barcelona, Pamplona, Paris, Nice, Atenas, Hamburgo, Cidade do México, São Paulo. Uma onda de protesto começou a varrer a Europa inteira e o mundo. Até parece que estamos diante da edição renovada das jornadas de maio de 1968. A juventude, como naquela época, volta a funcionar como a espoleta sismográfica do descontentamento geral, no caso atual, contra o horror econômico do neoliberalismo.

      No foco da crítica está o G-8 (os sete países mais ricos do mundo, mais o chefe de KGB que governa a Rússia decaída), uma espécie de comitê central do capitalismo globalizado. É o vértice político de uma estrutura de poder voltada para garantir a reprodução do capitalismo puro e duro do receituário neoliberal. Seu objetivo é assegurar, a qualquer custo, a prioridade do lucro, a supremacia do mercado e a soberania absoluta do capital financeiro. São violentos, poderosos e, no entanto, carentes de legitimidade. Por isso, mesmo sendo donos do mundo, não encontram lugar para reunir sossegados. São esteios de uma ordem social injusta que, se não for contrarrestada, coloca em risco o processo civilizatório e pode arrastar a humanidade para uma nova barbárie.

      Esse, aliás, é o processo que está em curso. A onda começou pela direita mais dura, tipo Pinochet, Reagan e Tatcher. Na sua fase triunfal ganhou o brilho de algumas estrelas de aluguel. Os arrivistas de procedência variada -- populista tipo Menen, enganadores tipo FHC, socialistas tipo Felipe González, trabalhista inglês, social-democrata alemão e até ex-comunista italiano - enfim, uma festa. Agora, quando a onda começa a experimentar o seu ocaso e a própria terceira via se degringola, a face dura da velha direita retoma o timão. Os acontecimentos de Gênova trazem a marca do fascio Bush-Berlusconi. O protesto de Roma, o mais numeroso de todos até agora, ligou o sinal de alerta. Na faixa, gigantesca, que abria o cortejo estava escrito: "Genova-G8-20Julho-2001-17,20h" e embaixo, em letras garrafais, "ASSASSINOS!". A data exata e a conclamação clara: defender a vida contra o G8, que opera sob o signo da morte.

      [volta]


      O Convescote do Banqueiro Setúbal

      (redigido em julho de 2001)

      O banqueiro Setúbal, magnata supremo do Itaú, convocou para jantar em sua casa o presidente da República. Em torno da mesa, certamente farta, estava uma seleta dos mais poderosos donos do Produto Interno Bruto.

      Novidade? Nenhuma. Foi apenas mais um encontro do poder formal, leia-se FHC, com o poder real, leia-se os mesmos de sempre. Objetivo? Diante da crise que se agrava, fortalecer a fraternidade ativa intra-elites e encontrar saídas que garantam os interesses -- tanto os imediatos quanto os estratégicos -- dos donos do poder. Mais do que a proteína animal, portanto, estava na mesa a proteína política que alimenta o governo, o modelo atual e o seu regime.

      O presidente, de volta a Brasília, tomou logo providências. Passou o dia inteiro reunido com a cúpula da equipe econômica para, certamente, executar o que foi recomendado no banquete. Já despacharam os estafetas para passar o pires no Fundo Monetário Internacional. Vem aí, podem estar certos, mais do mesmo. Mais arrocho, mais corte no orçamento para os serviços públicos essenciais, juros mais altos, mais desemprego. Enfim, vão apertar o torniquete vil que está estrangulando o Brasil e os brasileiros. É o círculo vicioso e a lógica infernal de um modelo que produz, ao mesmo tempo, a tragédia social e a alegria dos banqueiros.

      E tem mais. Os donos do poder estão preocupados com a sucessão presidencial. Aliás, entre as "entradas" do jantar havia um texto, assinado pelo professor Fábio Wanderley Reis, tratando do assunto. O professor, a julgar pelas declarações do próprio, entrou na história como Pilatos no credo. E ele já cuidou, rápido, de lavar as mãos. Mas o tema, certamente, foi a peça de resistência do jantar. O mesmo banqueiro Setúbal, não faz muito, tratou do assunto na coluna da jornalista Dora Kramer. E o fez com clareza meridiana. Disse, por exemplo, que estava se afastando da direção dos seus negócios para dedicar tempo integral ao trabalho de interferir na sucessão presidencial. Mais, que o debate sucessório se dará entre o modelo atual e aquele que vier a apresentar o PT. Mais, que o PIB e o mercado financeiro ainda têm muito receio do PT e tudo fará para garantir a continuidade do atual modelo. Mais claro, impossível.

      A promiscuidade entre o cerne do governo e a alta cúpula da banca privada, que o jantar revela, é o eixo de sustentação da tirania financeira que nos governa. Tudo o que de ruim nos acontece passa pela malha desta cumplicidade. O arrocho, a entrega, a privataria, a grossa corrupção -- que segundo o especialista Barbalho está na Avenida Paulista --, a manipulação da mídia, a interferência do poder econômico nas eleições através de procedimentos que, de tão escancarados, nem são capitulados como crime na justiça eleitoral, enfim, todos os pilares do atual regime. Ao contrário do que recomenda a regra da boa alimentação, os poderosos jantam juntos para manter o regime. Foi o que fizeram no convescote do banqueiro Setúbal.

      [volta]


      Radicalizar a política

      (redigido em 11-07-2001)

      "Se há um caminho a trilhar para romper o muro da desigualdade social que atravessa o Brasil, é justamente o da radicalização da democracia e, por conseguinte, da política". Cabe perguntar: quem é o autor da proposta que manda radicalizar a política? Algum esquerdista empedernido, partidário do caos, no calor de um palanque do movimento "Fora FHC"? Não. Ela está estampada no editorial principal da "Folha de S.Paulo", do dia 11 de julho de 2001. E foi redigida no aquário refrigerado do andar de cima da redação do jornal de maior circulação do país.

      A razão é simples. Foram publicados dois relatórios, um da ONU, outra da Fundação Getúlio Vargas, que falam dos indicadores da nossa realidade social. Sempre que isso acontece é um Deus nos acuda. Os números são os de sempre, com pequenas variações na série estatística. Uma radiografia acachapante da tragédia social brasileira. Os 10% mais ricos abocanham quase metade da renda nacional. Os 10% mais pobres vivem na penúria com 1% da renda. Um quadro que expressa a manutenção secular da má distribuição da riqueza.

      No vértice da pirâmide, o 1% mais rico vive no paraíso, com estadias regulares nos paraísos fiscais. São tão ou mais ricos que os mais ricos dos países mais ricos. Patrimônio protegido pelas regras, contratos e estruturas da "nova ordem mundial", eles mandam no governo que lhes facilita a sonegação, a elisão e a reprodução tranqüila de seus privilégios. Por outro lado, dados da FGV, 50 milhões de brasileiros vivem no último círculo do inferno de Dante. É quase um terço da população abaixo da linha de pobreza, na indigência. São tão ou mais pobres que os mais pobres dos países mais pobres. Um abismo que faz do Brasil o campeão mundial da desigualdade.

      Radicalizar a política, em semelhante quadro, implica em saber que tal e tamanha injustiça não é casual. Não se trata de um castigo de Deus nem obra da natureza, mas de uma construção política, meticulosamente reproduzida ao longo dos tempos. Um problema estrutural que não se resolve apenas com políticas compensatórias. É preciso ir além. Mobilizar e organizar, sem receios, as forças sociais interessadas na mudança real. Atacar as causas da desigualdade, sabendo que a indigência material da maioria é a imagem espelhada da indigência política e moral da minoria privilegiada.

      Combater a desigualdade. Essa é a questão central que deveria polarizar a agenda da disputa presidencial de 2002. O Brasil precisa de um governo popular e democrático, fundamentalmente para travar este combate essencial. Mantido o quadro atual, dilacerada por tão profunda desigualdade, a sociedade brasileira não tem futuro. Nela, nada funciona, prevalece o abismo que inviabiliza a universalização de direitos e ninguém é cidadão. E o caminho para enfrentar o problema é o que recomenda a "Folha de S. Paulo": radicalizar a política.

      [volta]


      Robin Hood ao contrário

      (redigido em 01-07-2001)

      O governo FHC é um instrumento da tirania financeira. O poder dos tucanos emana dos banqueiros, que lhes financiam as campanhas, e é operado com meticulosa crueldade na defesa dos interesses da especulação. Essa marca, essencial, está presente nas linhas gerais -- vide Proer, privataria, submissão ao FMI, sacralização da dívida que cresce como bola de neve -- e em toda e qualquer iniciativa da máquina governamental. Trata-se, sem dúvida, de um governo de rapina, que assalta a bolsa popular para garantir o ganho volumoso e fácil dos especuladores.

      Exagero? Os fatos dizem que não. Um pequeno exemplo está no JB, matéria publicada em 1/7: "Enquanto a emenda constitucional de reforma tributária era esquecida no Congresso -- onde tramita deste 1995 -- o Planalto realizou uma série de alterações legais que produziram arrecadações e recordes, mas não conseguiram melhorar a justiça tributária no país". O titular da Receita, Everardo Maciel, primo do vice, conta vantagem e chama esse processo de "uma reforma silenciosa". O conteúdo das alterações deixa claro: o leão que ruge forte e ataca sem piedade o bolso dos assalariados é o mesmo que mia como um gatinho de estimação no colo dos poderosos.

      Com a palavra o Unafisco, Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal. Quem trabalha no ramo, conhece a máquina, afirma que aumentou nos últimos seis anos a tributação dos mais pobres e reduziu a cobrança dos mais ricos. O congelamento da tabela do IR tirou milhões de brasileiros da faixa de isenção. Antes ficava livre do imposto quem ganhasse até nove salários-mínimos, hoje a isenção só atinge quem ganha até cinco salários. Mantida a correção das faixas salariais pela UFIR, 5,5 milhões de trabalhadores estariam livres do imposto. O fim da alíquota de 35%, que incidia sobre os salários mais altos, foi outro desastre. Aumentaram a alíquota, que era a média, de 25% para 27,5%, passando-se a operar com apenas duas faixas, uma flagrante injustiça tributaria. A maioria dos países trabalha com seis a oito faixas diferentes para cobrar mais de quem ganha mais. Resultado: entre 1966 e 2000 a arrecadação do IR pago pelo trabalhador aumentou 68%, o dobro da inflaç! ão.

      Por outro lado, o imposto sobre o lucro foi aliviado. O IR da pessoa jurídica caiu de 25% para 15% e a tributação adicional que variava de 12% a 18%, foi reduzida para 10%. Outra jóia da "reforma silenciosa": a possibilidade de remunerar com juros o capital próprio das empresas. O capitalista calcula o que pagaria de juros se fosse tomar de empréstimo o que lhe é próprio e, ato contínuo, deduz essa "despesa virtual" do imposto devido. Uma beleza. E tem mais. Enquanto o imposto do trabalhador é sacado na fonte -- ele nem vê a cor do dinheiro -- o do patronato é aquele território maravilhoso da sonegação e da elisão fiscais. Esse é o governo FHC, que tira dos pobres para dar aos ricos, em suma, um Robin Hood ao contrário

      [volta]


      Outro modelo, outros valores e outros fundamentos


      O dólar sobe de maneira continuada e, no pânico da irracionalidade, pode disparar a qualquer momento. Pudera. Neste modelo, o câmbio só é flexível para cima. Os juros seguem o mesmo caminho. Inviabiliza a atividade produtiva e, ao mesmo tempo, joga para as calendas a indispensável retomada do crescimento. Outra conseqüência, essa imediata, é a explosão automática da dívida, que já é imensa e impagável. Mantido o modelo, não tem saída. O garrote vil da tirania financeira, que nos governa na era FHC, coloca em risco a nossa sobrevivência como nação independente.

      Até os analistas amigos do governo estão com as barbas de molho. Eles sabem que, mantido esse quadro e, pior, ele tende a se agravar, não vai dar para fechar as contas no fim do ano. O resultado será, mais uma vez, o Brasil no fundo do poço. Enquanto isso, os tecnocratas bilingües, que administram nossa economia a serviço dos banqueiros internacionais, farão o de sempre. Vão passar o chapéu no Fundo Monetário Internacional, retroalimentando o círculo vicioso da vulnerabilidade externa. Afinal, os donos e os empregados do cassino sabem que a roleta dos ganhos especulativos não pode parar.

      A famosa vulnerabilidade externa, não por acaso, é um argumento que sempre volta à baila nestas ocasiões. O vilão da vez, que já foi a Rússia, a Ásia, a Turquia, agora é a Argentina. É verdade, sem dúvida, que a voracidade dos especuladores é universal. Mas não é verdade que todos os países sejam vítimas dela em igual medida. Há os que sabem proteger sua soberania e seus interesses. Sem que isso signifique, de nenhuma maneira, isolamento ou autarquismo. É o caso, por exemplo, da China, que até tira proveito das investidas desordenadas da ganância geral. Quem se ferra mesmo, são os mais subservientes. Os mais aplicados no "dever de casa", que seguem direitinho os "fundamentos" recomendados pelo receituário geral, estes, coitados, estão prisioneiros dos desígnios da ciranda especulativa.

      A saída não é fácil, nem o problema se resolve com emplastos, correções parciais ou mera mudanças de ênfase. Para desarmar a armadilha da vulnerabilidade externa só há um caminho: romper com o modelo que a determina de forma inexorável. Uma tarefa gigantesca que só a cidadania mobilizada pode encarar. A crise do apagão, de certa forma, vai lançar luz sobre essa necessidade imperiosa. Um gargalo material, criado pela sujeição irresponsável aos ditames da tirania financeira, do qual não se sairá sem um choque de cidadania. Será o motor de arranque para revolver as camadas profundas da sociedade e abrir espaços para construir uma alternativa nova: outro modelo, outros valores, outros fundamentos.

      [volta]


      Establishment versus cidadania


      Agora virou moda. Até parece que atacar o PT se tornou a prioridade número um do governo. Quase todos os dias, os titulares mais qualificados do poder corrompido aparecem, em atividades e locais os mais diversos, no exercício deste insultuoso dever. Essa semana a tarefa ficou por conta do próprio FHC, em pessoa, e do maligno Malan, o czar da tirania financeira. O primeiro, no interior de São Paulo, onde foi distribuir migalhas num palanque de platéia compulsória, formada na base do ponto facultativo e na dispensa escolar e, mais, com a repressão mantendo à distancia a voz rouca das ruas. O segundo, no recinto amigável onde se serve o filé mingnon: os salões acarpetados da Associação Comercial do Rio de Janeiro

      Nos dois casos, o centro do discurso foi pau no PT. E, prestem atenção, atacam o partido por ter cão e por não tê-lo. Se a proposta petista, sintonizada com os anseios mais profundos da cidadania, fala em ruptura radical com o atual modelo, podem estar certos de que seremos acusados de partidários do caos. Se adiantamos propostas concretas para uma transição negociada, com transparência para a sociedade, capaz de minimizar os custos sociais da saída da crise, então será porque amaciamos, faremos o mesmo que eles fizeram. Não é nem uma coisa nem outra, é claro, e disso sabe o cidadão consciente. Não buscamos o caos, nem vamos entregar o ouro aos bandidos. O papo do governo é contraditório, maluco, mas tem lógica. Eles sabem que o PT é o polo oposto, o adverso, o inimigo deles e dos interesses escusos que eles representam. Temos história, lastro, base social e projeto político para superar o descalabro provocado no Brasil pelo receituário neoliberal.

      O que essa gente do governo ainda não percebeu é outra coisa. A crise é gravíssima e o buraco é mais embaixo. O sucesso do PT não passa de expressão política de um deslocamento profundo de forças sociais. O projeto dominante na era Collor-FHC está falido. As eleições de 2002, mais do que substituir mandatos e mandatários, vai substituir projetos. O povo brasileiro quer outro modelo, radicalmente distinto deste que aí está. Essa questão, essencial, está abrindo um abismo entre os interesses do establishment e os anseios da cidadania. A crise energética, cujo epicentro agudo ainda está por vir, pode ampliar este abismo com velocidade vertiginosa. Essa é a questão. Esse é o nó górdio, que só se desata com a participação ativa da cidadania.

      Em situações como a que estamos vivendo, algumas determinantes se tornam inevitáveis. Quem - partido, personalidade ou força política - procura se tornar confiável ao establishment, ganha a desconfiança automática e imediata do cidadão. O processo político caminha no fio da navalha. O terreno está coalhado de armadilhas. Só pode avançar, em tal terreno, quem tenha história, lastro, base social e legitimidade. Além disso é preciso ter um norte político claro. E coragem para tomar partido na disjuntiva que começa a governar os rumos dos acontecimentos: establishment versus cidadania.

      [volta]


      A Hora e a Pauta da Cidadania

      (redigido em 14-6-2001)

      A elite carcomida - entreguista, irresponsável, gananciosa - arrastou mais uma vez o Brasil para a encalacrada da crise. Sempre que isto acontece, a história recente confirma, só há um remédio: a mobilização cidadã. Estão aí, bem frescos na memória de todos, os exemplos luminosos das campanhas das Diretas-Já e do Fora Collor. Não há outra saída, para renovar o estoque de esperanças e construir uma alternativa nova, senão recorrer ao mesmo caminho. Democrático, republicano e transformador.

      O governo FHC, artífice do desastre, ainda não se deu conta da sua condição de doente terminal. Cultiva a ilusão de que ainda pode pautar a sociedade. Seu "programa" dos 3 Ps - propaganda, punição e prebenda - é de um ridículo soberbo. Não cuida das causas do problema e quanto à emergência apenas a tangencia. Ninguém pode levar a sério. Debater, com transparência para a sociedade, as causas da crise, nem pensar. O governo foge disso como o diabo da cruz. E a razão é simples. A causa da crise é o próprio governo e a sua política criminosa. Quem gerou o desacerto carece de legitimidade para combatê-lo. Por isso bate cabeça, gira em falso como uma biruta de aeroporto, dispara no escuro medidas desencontradas. Um espetáculo deprimente.

      A situação se encaminha para um quadro de economia de guerra. Não há para ela saída fácil, nem a questão se resolve no curto prazo. Há, no entanto, uma serventia no choque do apagão: vai acordar a cidadania. Os primeiros movimentos não deixam dúvidas. Quem se vê forçado a economizar energia pratica a solidariedade. Ela pode ser, no início, compulsória. A repetição do gesto, no entanto, terá uma decorrência inevitável para cada qual que o pratica: a consciência de que pertence, com os demais brasileiros, a um destino comum. Daí para a solidariedade ativa é um passo. As conseqüências deste processo de tomada de consciência, que já começam a se tornar visíveis na superfície da nossa vida social, vão mudar o eixo da política brasileira.

      A cidadania estará de volta à cena principal do teatro da política. Com ela, sai a pauta do governo e entra a pauta da sociedade. O primeiro passo, já em andamento, vai identificar as causas da crise energética. São Pedro é inocente. O governo é o culpado. Ato contínuo, é só puxar o fio da meada que as medidas a serem adotadas para a saída da crise aparecerão encadeadas como uma corda de caranguejos. Parar, já, com toda e qualquer privatização. Auditoria nas negociatas das privataria e retomada da propriedade publica nos setores essenciais. Regulação pesada - própria dos períodos de economia de guerra - para os concessionários privados. Mudar os hábitos de consumo, tudo bem, desde que associados a uma mudança profunda da matriz energética. O que implica mudar a matriz da política econômica e romper com a servidão voluntária ao FMI. Em suma, o choque de cidadania vai eletrocutar o governo.

      [volta]


      A ELETRODEPOSIÇÃO DE FHC

      (redigido em 06/06/2001)

      Se a cidadania, na encalacrada da crise do setor elétrico, fosse se orientar pelo que diz o governo, francamente, estaria totalmente perdida. Os titulares designados para conduzir e explicar a situação não dizem coisa com coisa. Ou, pior, batem cabeça, dizem coisas desencontradas e não conseguem se entender sobre as questões mais elementares. As medidas provisórias, editos da ditadura disfarçada que nos governa, se renovam a cada dia para dar conta não da crise propriamente dita mas da desorientação do governo. Uma trapalhada sem tamanho. Coisa espantosa como há muito não se via.

      O responsável pela agência reguladora específica do setor, a Aneel, sumiu, foi desplugado, seu nome desapareceu dos jornais. Abdicou ou foi abduzido, o que funciona como uma confissão de culpa. O mesmo aconteceu, em escala menor, com o responsável ministerial da área, o "e agora José". Foi encaixado, em posição subalterna, no ministério especial do apagão. O tecnocrata Parente, pau para toda obra e especialista em explicar o inexplicável, foi chamado a responder pelo ministério da escuridão. Faz dupla, na tarefa de falar muito sem nada esclarecer, com o contra-parente. O genro do presidente e donatário de uma agência conexa, a do petróleo, que fala pelos cotovelos e, quase sempre, troca os pés pelas mãos. E, para completar o elenco sinistro, o próprio sogro e titular supremo do logro, o presidente FHC. Sua última façanha foi ocupar, pela segunda vez em curto espaço de tempo, uma rede nacional de televisão para desdizer o que dissera na primeira aparição. Haja paciênc! ia.

      A confusão do governo é geral e a razão é simples. O governo gira em falso, em torno do próprio eixo, como uma biruta ao vento. Tenta tratar a situação, de gravidade tão extrema, com golpes de propaganda e cultiva a ilusão de que, com distribuição de punições e prebendas, garantirá sua sobrevivência inercial. Opera no vazio de legitimidade, onde só pode ostentar a firmeza de uma estaca no brejo. Neste quadro, o seu objetivo é mais confundir do que explicar. Por isso foge do debate mais profundo, da análise das causas, da busca de saídas não apenas emergenciais mas permanentes. A decorrência inevitável deste debate, que deverá ocorrer mais cedo do que tarde, será a definição do lugar do governo na crise do setor elétrico: o banco dos réus.

      Privatizou, piorou. Desmantelou o sistema Eletrobrás e, com ele, a capacidade de planejamento estratégico. Teleguiado pelo FMI, não investiu. Entregou empresas públicas lucrativas aos monopólios estrangeiros que só fazem remeter lucros para o exterior. O resultado é o caos. O cidadão que, por autodefesa, toma providências e economiza energia, também toma consciência. Enfrenta a emergência e pensa no permanente. Atravessa a conjuntura difícil e descobre o estrutural. A crise do setor elétrico arrasta o governo e o seu modelo para o curto-circuito final: a eletrodeposição de FHC.

      [volta]


      O APAGÃO DO GOVERNO E DO SEU MODELO

      (redigido em 01/06/2001)

      A luz, quase sempre, brota na escuridão. Mais do que um paradoxo poético e filosófico, trata-se de uma questão prática presente no cotidiano de todos nós. O choque provocado pelo colapso do setor elétrico, na lógica da pedagogia do paradoxo, vai acordar a cidadania. Os primeiros indícios estão aí: nos noticiários, nas cartas dos leitores de todos os jornais, nas pesquisas de opinião, na tomada de posição das estruturas intermediárias que organizam a sociedade, nos pesquisadores sérios que atuam nas universidades e nos serviços, nos sindicatos, nas ruas, na boca do povo, em toda parte.

      O cidadão que toma providências domésticas e se organiza para economizar energia, qualquer que seja a sua motivação imediata, produz um movimento que lhe remete para a malha da reflexão coletiva. O ato de retirar um eletrodoméstico da tomada é, ao mesmo tempo, uma tomada de consciência. Ele não faz isso para apoiar o governo. Pelo contrário. As pesquisas de opinião, respondidas por este mesmo cidadão, responsabilizam o governo pela crise e jogam no chão a popularidade, que já era baixa, do presidente FHC. O buraco é mais embaixo. O quadro da crise, que nos afeta a todos de uma maneira tão concreta, desperta o sentimento de comunidade. A cidadania começa a se organizar para tomar nas mãos o seu destino comum. Contra a catástrofe que nos ameaça e contra o governo que a produziu.

      O apagão deixa claro que os críticos não eram catastrofistas, o governo é que era catastrófico. A lambança que fizeram no sistema elétrico é parte da lambança geral. O colapso, o eclipse, o apagão do setor elétrico é apenas uma imagem espelhada do colapso, do eclipse, do apagão do governo inteiro e do seu modelo. Desmontaram o estado, destruíram direitos sociais, privatizaram tudo para satisfazer os apetites insaciáveis da tirania financeira. O resultado é este que aí está. A sociedade, o povo trabalhador, o cidadão, o comércio, a agricultura, a indústria que produz bens, tudo paralisado na encalacrada de crise. E o governo bate cabeça na escuridão, sem rumo, sem mensagem, sem manhã.

      Os beneficiários desta situação desastrosa continuam sendo os mesmos. Os banqueiros nacionais e internacionais, os especuladores e investidores no cassino financeiro, a escumalha política que mama nas tetas de Brasília e, para usar uma expressão do filósofo paulista Paulo Arantes, a "pedantocleptocracia" do tucanato. Saída para tal situação, só existe uma. Passa pelos mesmos caminhos que nos livraram da ditadura militar e que depuseram, democraticamente, o outro presidente corrupto, Collor de Melo. Vamos acender as velas da cidadania, acionar o motor grande da mobilização popular que costuma mudar os rumos da história e promover o apagão que interessa: o do governo e do seu modelo.

      [volta]


      Já era FHC!

      (redigido para publicação no "Correio da Cidadania")

      O presidente FHC está em pânico, completamente perdido. A prova do descontrole está na página 2 de "O Globo", de 23 de maio, na coluna da Tereza Cruvinel. Sem que ninguém lhe perguntasse nada, de moto próprio, o primeiro mandatário disparou a metralhadora giratória dos desesperados. Acusou de leviana a imprensa, de fascista a oposição, e de irresponsáveis o Ministério Público, o Judiciário, os magistrados que dão entrevistas e, com particular empenho, os juristas de nomeada que estão a pedir o seu impeachment. Sobrou até para o ex-presidente do Banco Central, Chico Lopes. Antes tão elogiado pelo presidente, agora um estúpido que fez tudo errado na "operação da banda diagonal endógena".

      O destampatório é revelador. O governo despencou na banda diagonal endógena e ostenta um viés de baixa definitivo. O foco, a causa da crise, é o próprio governo. A conivência do presidente com a corrupção foi decantada, em entrevista com correspondentes estrangeiros, pelo senador ACM. O senador Pedro Simon disse -- em frase célebre -- não saber se o presidente rouba ou deixa roubar, mas investigar ele não deixa de jeito nenhum. Quando foi apanhado com a boca na botija, quem gritou "falta o cabeça" foi o ex-senador Luiz Estevão. Todos, guardadas as diferenças de posição e caráter, são afiliados aos partidos da base de sustentação do governo. Réus confessos, profusão de fatos concretos e denúncias documentadas brotam aos borbotões na briga entre os governistas. Uma coisa espantosa.

      Em tal quadro, o que faz a oposição? CPI neles. Um recurso democrático, republicano, inscrito na Constituição. Quando funciona, como mostra a história recente, é a arma mais eficaz contra os criminosos alojados nos altos escalões do poder. Quando o governo abre o balcão de compra e venda de consciências e abafa, como fez com a ajuda de Jader Barbalho há duas semanas, chama para si o foco da suspeita. Neste caso, resta um último recurso: mobilizar a consciência digna da cidadania. É democrático e republicano o cidadão que ocupa, com seu corpo, o espaço livre das ruas para protestar contra o governo. Não tem nada a ver com golpismo, nem aqui nem na China.

      O alvo da oposição não é revelar o caráter do presidente. Ele próprio cuida disto e a entrevista em pauta é boa mostra. A questão é o caráter do sistema que ele representa. Destruiu direitos sociais, borrou a linha que separa o público do privado, desmantelou o Estado. Um terço do PIB mudou de mãos na era FHC. Nesta transferência brutal de poder, operada na base da rapina e da "ação entre amigos", reside a grossa corrupção. "Avançar com o atraso" é isso aí: promete o renascimento e produz trevas. Não tem mais jeito, o governo acabou. Na urna mortuária estará escrito: já era FHC.

      [volta]


      PT - 13: MILTON TEMER GOVERNADOR

      Rio de Janeiro, Maio de 2001

      O Brasil vai mudar. As principais alavancas do poder político, na eleição de 2002, vão trocar de mão. E, o que é mais importante: além dos mandatos -- a presidência da República, o governo de todos os estados da Federação, 2/3 do Senado, a totalidade da Câmara Federal e das Assembléias Legislativas -- está chegando ao fim o modelo neoliberal com o seu padrão corrompido de política.

      O sentido da mudança, o povo já sinalizou na onda vermelha das eleições municipais do ano passado. Basta de arrocho, de destruição dos direitos sociais, de privatizações que geram apagões, de desmonte dos serviços públicos essenciais, de entreguismo. Basta de sacrificar a vida de quem trabalha para pagar juros da dívida e engordar banqueiros. Basta de corrupção e de governantes que operam como gerentes de negócios e patrocinam a invasão do poder público pela tirania financeira.

      Os interesses legítimos dos trabalhadores e os valores democráticos da cidadania, tão sacrificados pelo modelo neoliberal, vão marcar presença forte na cena eleitoral. A agenda da disputa será definida pelo deslocamento e a reorganização política das forças sociais. Não será, portanto, uma eleição comum. Além de mandatos e governos, haverá uma disputa de projetos. Será a hora da virada. O fim da era FHC. Enterrar o modelo perverso das elites, que coloca em risco a sobrevivência do Brasil como nação independente, e construir a alternativa democrática e popular.

      O Rio de Janeiro, sempre presente nas grandes lutas, estará mais uma vez na linha de frente. E com uma tarefa extra: desmascarar a farsa Garotinho. Eleito com o apoio das esquerdas, traiu todas as promessas de campanha e foi cavalo de Tróia das elites. Linha auxiliar, não moveu uma palha contra FHC. Aplicou, na administração, as mesmas políticas neoliberais e governou com as mesmas forças que apóiam no Rio o governo federal. Um governo medíocre. Está acabando e parece que nem começou. Tudo nele é pequeno, menos a ambição pessoal. Usa a máquina do governo como trampolim, faz propaganda enganosa e monta esquemas obscuros. A "república do chuvisco", que trocou de cadeiras depois do primeiro escândalo, continua no cerne do governo. Fisiológico, populista, esse governo do misticismo corrompido e corruptor terá, em 2002, o mesmo destino de FHC: o rechaço do eleitorado fluminense.

      A militância petista se prepara para enfrentar, unida, mais este grande desafio. Desmantelar o pacto perverso das elites e construir a alternativa democrático-popular. Aqui no Rio, e no Brasil inteiro, essa tarefa começa pela organização de uma campanha participativa. Sem medo da livre manifestação dos conflitos e da mobilização ativa dos movimentos sociais, vamos disputar a agenda, formular o projeto alternativo e construir um governo de novo tipo, marcado pela participação popular. Resgatar os valores republicanos, a primazia do público sobre o privado e recolocar a cidadania no controle da política e das suas instituições. Para enfrentar o desafio, apostando no êxito desta luta decisiva, os que assinam este manifesto apresentam a candidatura do companheiro Milton Temer para governador do Rio de Janeiro em 2002.

      [volta]