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    Até onde vai a moralidade do PT?

    José Genoino

           Não é segredo para ninguém que o sucesso eleitoral do PT nas últimas eleições municipais deveu-se, em boa medida, à bandeira da moralidade que o partido vem empunhando ao longo dos anos. Não se trata, evidentemente, de transformar a moralidade num fim em si ou de fazer a pregação política da moral, como fazia a velha UDN. Trata-se de perceber que moralidade e transparência são uma exigência republicana, no sentido de que foram bandeiras que se opuseram ao privilégio, ao patrimonialismo e ao trato da coisa pública como coisa privada, inerentes à tradição monárquica e a outras formas autocráticas de governo. Por essa ótica, a moralidade é imprescritível para os que entendem, como o PT muito bem o expressa em sua Carta Eleitoral, que a coisa pública pertence ao público.

           Na medida em que o Estado brasileiro está viciado por longa tradição patrimonialista e particularista, nem sempre a falta de moralidade e transparência reveste-se de caráter ilegal. A própria estrutura administrativa e legal do poder está impregnada de falta de transparência, de imoralidade e de privilégios. Quanto mais o PT vai ocupando essa estrutura inerentemente corruptora, mais será desafiado a reformá-la profundamente, recusando práticas sacramentadas na memória e na história política brasileiras. Caso contrário, sucumbirá a essa estrutura e será arrastado para a vala comum dessa tradição.

           Os casos de nepotismo (contratação de parentes), de salários exagerados e da falta de ânimo para mudar estruturas corruptoras em que incorreram alguns integrantes do PT, conforme veiculou a imprensa, embora sejam exceções, demonstram os perigos a que o partido está submetido se não tratar com rigor os desvios de conduta em relação aos valores que pregamos e subscrevemos. Não podemos ter dupla moral: uma que exigimos dos demais e outra que aplicamos a nós mesmos. Se o nepotismo é criticável nos outros, não pode ser praticado por nós.

           Por mais militante ou qualificado que um parente de um administrador do PT possa ser, não se justifica que seja contratado em cargo de confiança. Esse tipo de contratação não isenta a mediação particular e familiar, que confere o caráter de privilégio aos olhos da opinião pública. Ora, é de autoria do PT o projeto de emenda constitucional que proíbe a contratação de parentes até o terceiro grau nos três poderes. A Executiva Nacional do PT, ao recomendar a aplicação da Carta Eleitoral do partido, que proíbe o nepotismo, deu claro sinal de que não está disposta a transigir com a imolação dos nossos valores. A mídia amplifica os nossos deslizes justamente porque contrariam aquilo que pregamos. Não se vê a mesma amplificação, por exemplo, quando o presidente Fernando Henrique nomeia o genro para a presidência da Agência Nacional do Petróleo. Mas é necessário que a moralidade pública seja uma exigência atribuível a todos os políticos e a todos os partidos.

           Na verdade, o Estado brasileiro vive sob a égide da desordem e da anarquia. Veja-se que na Prefeitura de São Paulo um secretário municipal recebe um salário de cerca de R$ 4.000, enquanto que um assessor seu ou um técnico sem curso superior de empresas municipais pode receber salário de R$ 7.000 ou mais. Na Câmara, muitos assessores recebem mais do que os vereadores. E o que dizer da verba de R$ 92.000 mensais que cada gabinete recebe? Verba quatro vezes superior à dos deputados federais. Assim, é inaceitável que alguns vereadores do PT não queiram mudar a situação de descalabro da Câmara Municipal.

           O princípio que se deveria adotar na administração, de cima a baixo, é o de que nenhum funcionário do Legislativo deveria receber mais do que o parlamentar e nenhum funcionário da administração, incluindo os assessores, deveria receber mais do que o governante. Nas empresas públicas, todos deveriam ingressar por concurso e ninguém, nem mesmo os presidentes e diretores, deveria ser contratado por comissionamento ou cargo de confiança. Os presidentes das empresas deveriam ter mandatos fixos e ser indicados pelos governantes a partir de lista tríplice composta por funcionários concursados, como ocorre com os reitores das universidades públicas.

           O Estado brasileiro é público de sua metade para baixo e privado na sua metade superior. Cortar milhares de cargos de confiança, criar uma burocracia profissional, estimulá-la por meio de planos de carreira e salários dignos é imperativo estratégico para que o Estado adquira memória, impessoalidade, continuidade e eficácia. Esse é um passo necessário para submeter o Estado ao controle do público e para colocá-lo a serviço dos cidadãos.

    (publicado no "Correio Braziliense" em 30 de janeiro de 2001)



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