A barbárie americana no Afeganistão

Miguel Urbano Rodrigues

O massacre de desinformação comandado dos EUA apresenta o Afeganistão como um espaço de barbárie. Os talebans (antes armados e acarinhados por Washington) são uma fração mínima da população afegã. Mas a propaganda midiática confunde esse bando de fanáticos, que inspira repulsa universal, com um povo inteiro, a vítima real da agressão norte-americana.

Na sua imensa ignorância, o presidente Bush e os seus generais desconhecem que o território do atual Afeganistão foi berço de grandes civilizações e terra de implantação de outras, como a persa, a grega, a árabe e a dos mauryas indianos, que marcaram decisivamente a história da humanidade.

Os pilotos da US Air Force, agindo ao serviço de modernos bárbaros, estão a bombardear com orgulho lugares que encerram tesouros arqueológicos que são patrimônio mundial.

Quase diariamente, a televisão informa que alvos na região de Jalalabad foram atingidos com êxito. Não se esclarece onde explodiram os mísseis e bombas. Por conhecer aquela província, sei que ali se concentra um conjunto único de stupas-monumentos funerários budistas - do início da nossa era. Pela sua quantidade e densidade, é quase impossível que algumas não tenham sido destruídas pela chuva de metralha vinda das máquinas de guerra norte-americanas.

Com idêntica freqüência, os porta-vozes do Pentágono anunciam alegremente que a pista do aeroporto de Bagram ou algum micro quartel daquela área foi bombardeado com pleno êxito. Omitem que o subsolo de Bagram é um imenso campo arqueológico, de incalculável valor. Ali foi desenterrado, por uma missão de sábios franceses, o chamado Tesouro de Bagram - jóias, estatuetas, peças de cerâmica e outras obras de arte -, que permitiu levantar uma parcela do véu de mistério que continua a envolver a civilização criada por um povo ariano desaparecido, os kuchanos, que, nos séculos I e II, desempenhou um papel fundamental na história da humanidade. A monarquia kuchana foi o intermediário comercial entre a Roma dos Antônimos e a China dos Han, no período de apogeu de ambas as civilizações. Foi na época kuchana também que surgiu e se desenvolveu a arte dita de Gandhara, cuja estatuária fundiu em obras belíssimas a técnica o rigor formal dos artistas greco-bactrianos das cidades-estados helenísticas do nordeste do atual Afeganistão com a espiritualidade e a imaginação dos escultores hindus e budistas.

Os bombardeamentos de Herat foram trombeteados com a mesma leviana euforia militar. É indiferente a Bush e seus assessores que Herat tenha sido definida no início do século XVI, pelo príncipe Babur, descendente de Tamerlao e fundador do Império do Grao Mogol, como a mais bela e civilizada cidade do mundo. Os monumentos que restam dessa época constituem ainda uma maravilhosa herança da arquitetura do Renascimento Timurida.

Em televisões estrangeiras, registei duas ou três referências a Ghazni. Terá sido bombardeada? Permanecerão ainda de pé os seus minaretes quase milenares?

Ghazni é, estou certo, uma palavra sem significado para os homens que na Casa Branca enchem a boca com a palavra civilização. Tal ignorância não apaga a história. ghazni foi, nos séculos X e XI, a capital de um sultanato turco, que deixou memória inapagável.

Foram os exércitos turcos de Mahmud - e não os árabes - quem difundiu a religião islâmica na Índia, acontecimento que iria pesar decisivamente no rumo da história.

Sob o mecenato de Mahmud e de seu filho, Ghazni tornou-se um foco de cultura que irradiou pela Ásia. Ali nasceram ou afluíram dezenas de escritores, cientistas, filósofos, teólogos, cujas obras, pelo seu significado, permaneceram pelos séculos afora como paradigmas do gênio criador do Islão. Para exemplificar, citarei quatro. Firdusi escreveu o Xanama (o Livro dos Reis), epopéia hoje traduzida em dezenas de países e que narra a saga dos antigos iranianos e representa para os povos de língua persa o que os Lusíadas significam para os portugueses. Sanaí, um sufi, escreveu o Sol Ul Ibad, um poema místico, comparado, pela temática e pela beleza literária, à Divina Comédia de Dante Alighieri. Al Biruni, que acompanhou Mahmud em expedições à Índia, foi talvez o mais eclético sábio da Idade Média. Matemático, astrônomo, filósofo, historiador, botânico, etnólogo, dominava seis ou sete idiomas, e deixou obras sobre a Índia e os seus povos, que se tornaram de estudo obrigatório nos grandes centros de cultura do mundo muçulmano. Finalmente, Ib Sina, o famoso Avicena, o maior médico da época, nasceu e cresceu numa área da Transoxania, então sob soberania de Ghazni, embora se tenha fixado posteriormente no Iran.

Obviamente, George Bush nunca ouviu falar do Sultanato de Ghazni e dos seus artistas, da civilização kuchana, dos timuridas de Herat. Não lhe censuro a sua insuperável ignorância, mas ela não lhe confere o direito de fazer explodir mísseis sobre o que sobrou de grandes culturas que se desenvolveram no território do atual Afeganistão.

Quando, com pompa e orgulho, pronuncia a palavra Kandahar para anunciar que foi bombardeada com êxito, não faz a menor idéia de que nessa cidade, fundada por Alexandre da Macedônia, o povo local falava ainda grego e aramaico, dois séculos depois. Foi um edito do rei Maurya Achoka, gravado numa estela de pedra encontrada por acaso numa ruína, que nos trouxe há poucos anos essa revelação. É claro que o presidente dos EUA, a cujos olhos os crimes dos cruzados aparecem como atos de heroísmo, não ouviu sequer falar, provavelmente, da existência desse monarca indiano, que reinou sobre Kandahar e outras terras afegãs. Admito que nunca o informarão de que Achoka se tornou credor do respeito universal ao proibir, por edito real, a guerra na área do seu império, por considerar que é um fenômeno bárbaro, incompatível com a vocação e o destino dos homens.

A metralha que desce dos céus sobre terras do Afeganistão e atinge diariamente os povos que ali vivem é, segundo o sistema de poder imperial dos EUA, uma resposta aos atentados terroristas do 11 de Setembro. A punição recai, entretanto, sobre populações misérrimas, que nunca ouviram sequer falar de Manhattan, das suas ex-torres e do Pentágono.

É oportuno perguntar: onde estão os bárbaros?

(Correio da Cidadania, ed. 268, 27 out./ 3 nov. 2001)